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| Avião da Emirates no aeroporto de Dubai (Emirados Árabes Unidos): Região é estratégica para a aviação global (Imagem: Divulgação/21.abr.2013/Emirates) |
Os ataques de EUA e Israel ao Irã causaram um forte impacto na aviação mundial, com o cancelamento de milhares de voos e aeronaves paradas em aeroportos mundo afora.
É o caso de dois A380, o maior avião de passageiros do mundo, que estão parados no aeroporto de Guarulhos (SP). Uma das aeronaves realizava um voo da Emirates rumo a Dubai (Emirados Árabes Unidos) quando teve de voltar. E a outra chegou ao Brasil no mesmo dia, mas não pôde retornar devido às restrições no espaço aéreo de alguns países da região.
Com os ataques, ao menos nove países restringiram, total ou parcialmente, seus espaços aéreos, segundo a imprensa internacional. São eles:
- Irã
- Israel
- Iraque
- Jordânia
- Qatar
- Bahrein
- Kuwait
- Emirados Árabes Unidos
- Síria (por 12 horas)
Com isso, o número de cancelamentos e atrasos atingiu picos históricos.
Afinal, qual é a importância da região para a aviação mundial?
Centro do mundo: posição estratégica
A localização dos aeroportos da região permite uma conexão viável entre diversas áreas, colocando-os, de certa forma, no centro do mundo das conexões aéreas. Por ali é possível realizar diversos voos com alterações mínimas na rota em comparação com voos diretos.
Por exemplo, um voo entre o Rio de Janeiro e Tóquio pode fazer uma escala em Dubai com um desvio mínimo da rota direta, tornando essa uma opção viável, já que voos sem paradas entre os dois países seriam inviáveis (custos, muito tempo dentro do avião, capacidade das aeronaves para voar rotas tão longas, entre outras).
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| Rota entre o aeroporto de Guarulhos (SP) e o de Hong Kong (China) é menor via Dubai (Emirados Árabes Unidos) do que via Istambul (Turquia) (Imagem: Reprodução/Great Circle Map) |
Assim ocorre com rotas que ligam a Europa ou os EUA a países asiáticos, como Índia, Indonésia e Singapura. Nessas situações, os aeroportos do Oriente Médio servem como locais de concentração de passageiros vindos de várias localidades para ocuparem voos com um destino comum, já que, muitas vezes, não se justificaria um voo direto frequente entre as regiões.
Quebrar as rotas por meio do Oriente Médio também aumenta a frequência de voos. Em uma situação hipotética, uma rota direta entre Londres (Inglaterra) e Singapura conseguiria justificar a operação de apenas um voo diário.
Passando por Dubai, que tem vários voos diários a partir de Londres, haveria mais alternativas para Singapura, já que estariam ali passageiros interessados em voar para o mesmo local, oriundos de diversas outras regiões, mantendo os voos sempre cheios e com alta frequência.
A restrição de voos na região acaba reduzindo a eficiência das rotas e, com a suspensão de conexões, passageiros em alguns trajetos terão de buscar caminhos mais longos, o que aumenta o tempo de viagem e o valor final da passagem.
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| Airbus A380 da Emirates: Empresa é a principal operadora do modelo no mundo (Imagem: Divulgação/13.out.2015/Emirates) |
A necessidade de recorrer a outros hubs também pressiona o mercado no curto prazo, ao concentrar a demanda em rotas alternativas. Um passageiro que saía dos EUA para Singapura com escala no Oriente Médio, por exemplo, pode precisar optar por conexões via Europa, como Londres.
Mais do que trajetos fisicamente mais longos, porém, o impacto tende a vir da reorganização das conexões globais. Com menos opções de ligação, a oferta diminui e os preços tendem a subir, sobretudo em voos de longa distância.
Aeroportos mais lotados
O reflexo dessa posição é o crescente número de passageiros na região e a presença dos aeroportos do Oriente Médio entre os que mais oferecem assentos no mundo. Isso só foi possível graças às políticas públicas desses países, que investiram no transporte aéreo e no turismo locais.
O aeroporto de Dubai foi o segundo mais movimentado do mundo em 2025, ficando atrás apenas do aeroporto de Atlanta, nos EUA, segundo dados da consultoria britânica OAG, especializada em inteligência do setor aéreo. Ele registrou a oferta de 62,43 milhões de assentos, frente aos 63,09 milhões do aeroporto norte-americano.
Ocasionalmente, Dubai fica à frente de Atlanta por alguns meses do ano e passou da quarta posição, em 2019, para a segunda, em 2025. O aeroporto registrou um forte crescimento a partir daquele ano, com alta de 16% desde então, taxa que pode colocá-lo em breve como o mais movimentado do mundo.
Em quinto lugar, o aeroporto de Istambul, na Turquia, movimentou 51,51 milhões de assentos ofertados.
Alta conectividade
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| Mapa mostra conexões a partir do aeroporto de Dubai, que teve operações restringidas após ataques contra o Irã (Imagem: Reprodução/FlightConnections) |
Diversos aeroportos das capitais e de cidades secundárias da região apresentam conexões com mais de 100 destinos ao menos. É o caso de aeroportos como:
- Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos)
- Al Kuait (Kuwait)
- Antália (Turquia)
- Cairo (Egito)
- Doha (Qatar)
- Dubai (Emirados Árabes Unidos)
- Istambul (Turquia)
- Jidá (Arábia Saudita)
- Riad (Arábia Saudita)
- Tel Aviv (Israel)
Como comparação, na América Latina, apenas os aeroportos de Guarulhos (SP), Bogotá (Colômbia), Cidade do México (México) e Cancún (México) possuem mais de 100 conexões. Ainda no Oriente Médio, Istambul é a líder em número de destinos do mundo, com 327 conexões. Veja o ranking global:
- Aeroporto de Istambul (Turquia): 327 destinos
- Aeroporto de Frankfurt (Alemanha): 307 destinos
- Charles de Gaulle (França): 299 destinos
- Chicago O'Hare (EUA): 297 destinos
- Dubai (Emirados Árabes Unidos): 280 destinos
- Amsterdã (Holanda): 275 destinos
- Dallas (EUA): 272 destinos
- Roma Fiumicino (Itália): 265 destinos
- Xangai (China): 253 destinos
- Atlanta (EUA): 251 destinos
Aqui, Dubai aparece em quinto lugar, enquanto Atlanta está na décima posição. Ambos os aeroportos possuem particularidades, mesmo estando no topo em quantidade de assentos ofertados.
Atlanta tem grande parte de seus passageiros voando em rotas domésticas, o que utiliza, em linhas gerais, aeronaves menores. Isso torna a operação mais intensa na quantidade de pousos e decolagens registrados, por exemplo.
Já Dubai tem um grande apelo em rotas internacionais, e de longa distância ainda, operação geralmente realizada por aviões de grande porte, como os A380 da companhia aérea Emirates. Nesse sentido, a equação mostra que ter mais passageiros não significa necessariamente ter mais pousos e decolagens ou mais conexões, provando que cada aeroporto da região tem sua vocação.
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| Aviões da Qatar Airways comemorativos da Copa do Mundo de Futebol de 2022, ano em que o país do Oriente Médio sediou o evento (Imagem: Divulgação/12.jan.2022/Qatar Airways) |
Rotas mais movimentadas
Para além de Dubai e Istambul, algumas das rotas mais voadas, ou seja, com maior quantidade de passageiros no mundo, estão no Oriente Médio. Em 2025, a quinta rota doméstica mais voada era na Arábia Saudita, ligando a capital Riad à cidade de Jidá, onde se inicia a peregrinação de muçulmanos às cidades de Meca e Medina. Foram 9.819.558 assentos ofertados no trecho apenas no ano passado.
Já nas rotas internacionais, apesar do domínio de cidades asiáticas no ranking, duas conexões se destacam. São elas: Cairo (Egito) a Jidá, com 5.753.491 assentos ofertados (2º lugar), e Dubai a Riad, com 4.465.632 assentos ofertados (7º lugar).
Veja o balanço completo das rotas mais voadas aqui.
Fatores econômicos
A aviação também é um forte motor econômico para a região, mostrando-se uma indústria de destaque para além do petróleo em alguns países. Segundo a Emirates, uma das maiores aéreas da região, o impacto da aviação no crescimento econômico de Dubai chegou a 27% do PIB local em 2023, com 137 bilhões de dirhams (R$ 193 bilhões).
Também havia 631 mil trabalhadores no setor, número que tende a chegar a 816 mil empregos em 2030, segundo a companhia, atingindo a marca de 196 bilhões de dirhams (R$ 274 bilhões) movimentados naquele ano.
O impacto no turismo de Dubai causado pela aviação foi estimado em 43 bilhões de dirhams (R$ 60 bilhões), com 329 mil empregos no setor, perfazendo outros 8,5% do PIB da região.
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| Etihad Airways anunciou no final de 2025 um pacote de expansão em sua frota, composta por 25 novos Airbus A350 (Imagem: Airbus) |
As empresas aéreas da região, como Turkish, Emirates, Etihad, Qatar Airways, Saudia e Flydubai, também se tornaram grandes compradoras de aeronaves de Boeing e Airbus, tornando-se clientes muito importantes para as fabricantes globais. A região também possui centros avançados de manutenção e conversão de frotas.
Hoje, a Emirates é a maior operadora do Airbus A380. Junto à Qatar Airways, Etihad e Turkish Airlines, as empresas da região despontam como as principais companhias a operarem os gigantes Boeing 777 e 787, além de algumas ainda operarem exemplares do Airbus A350 em suas frotas.
A Qatar Airways também vem sendo eleita a melhor companhia aérea do mundo ano após ano. Tanto por sua operação quanto pela qualidade do serviço, ela desponta em rankings mundiais de excelência. Veja a análise da estratégia da empresa que já escrevemos aqui.
Alternativa com a guerra na Ucrânia
Outro fator, mais ligado a questões externas, é que, com o início da guerra na Ucrânia, o espaço aéreo do país e da Rússia ficou restrito. Rotas que antes sobrevoavam os dois países precisaram buscar alternativas para chegar ao destino em segurança.
Algumas delas passaram a sobrevoar o Oriente Médio, inclusive países que fecharam seu espaço aéreo. Com as novas restrições, voos que saíam da Europa com destino à Ásia precisaram desviar para rotas mais longas, causando mais transtornos e aumentando os gastos operacionais.
Via Alexandre Saconi (Todos a Bordo/UOL)







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