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segunda-feira, 27 de julho de 2026

A história do avião que caiu em 1968 em SP após o desembarque do time do Santos

Destroços do avião Viscount 857 da Vasp de matrícula PP-SRE, que caiu próximo à
Cidade Universitária, em São Paulo (Imagem: 15.set.1968 - Reprodução/Folhapress)
Um avião da Vasp (Viação Aérea São Paulo) caiu em 1968 no bairro do Butantã, na cidade de São Paulo. Poucos minutos antes de sua última decolagem, ele havia desembarcado o time do Santos, que voltava do Rio de Janeiro após um jogo.

Desembarque do Santos


A aeronave havia decolado do Rio de Janeiro no dia 15 de setembro de 1968 com destino ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo. A bordo, estava o time do Santos.

Naquele dia, o time paulista havia jogado contra o Flamengo no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. O Santos venceu o clube carioca por 2 a 0 pelo Taça de Prata, também chamado de Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Pelé e Amauri voltaram a jogar no time naquela partida, mas foram Edu e Toninho que marcaram os gols da vitória. Pelo Flamengo, nomes como Fio, Zezinho e Dionísio faziam frente à marcação dos paulistas.

Após a partida, a comitiva do Santos voltou para São Paulo no voo da Vasp, chegando na noite daquele domingo. O pouso em Congonhas, com 52 passageiros, foi o último em segurança da aeronave.

O acidente


O avião era um Vickers Viscount 827 de matrícula PP-SRE. Ele fazia a rota entre Fortaleza (CE), Rio de Janeiro e São Paulo.

Após deixar a comitiva do Santos no aeroporto, a aeronave da Vasp foi reabastecida para iniciar um novo voo. A bordo estavam apenas o comandante, Neutel Seiffert de Santa Fé, e o copiloto, Alberto Bougleux Freire.

O voo que se acidentou seria uma operação de checagem. Nele, o copiloto seria testado em voo para saber se estava apto a se tornar comandante do avião.

Às 21h20, o avião decolou para realizar treinamento com emergências simuladas. Cerca de três minutos depois, a aeronave caiu em um terreno na rua Gaspar Moreira, no bairro do Butantã, em São Paulo, a cerca de 7,5 km de distância do aeroporto de Congonhas.

Parte do avião atingiu o quarto onde Etelvina, empregada de uma residência localizada na mesma rua, dormia. Apesar dos ferimentos, ela foi retirada dos escombros e sobreviveu.

Os dois pilotos morreram carbonizados na queda.

Ao mesmo tempo, a cerca de 1 km de distância, era realizado o Congresso Regional da UNE (União Nacional dos Estudantes), na USP (Univesidade de São Paulo). O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, então presidente da UEE (União Estadual de Estudantes), participava do evento no local.

Meses depois ele foi preso durante a tentativa de realização do 30º Congresso da UNE em Ibiúna (SP). A entidade ainda operava na clandestinidade naquele período após ser substituída pelo Diretório Nacional dos Estudantes em 1965.

A investigação


A causa provável do acidente foi um erro de decisão dos pilotos durante o voo, de acordo com a investigação. Um dos motores não estava acionado, provavelmente, para simular um problema para testar a reação do copiloto.

Outro motor estava com potência baixa. Já os dois remanescentes estavam com a potência inadequada para a fase de decolagem, onde os motores devem estar operando no máximo.

Com isso, o avião estava a uma velocidade aproximada de 185 km/h a 203 km/h. Da maneira como a aeronave foi configurada, seria necessário estar a pelo menos 240 km/h para se manter no ar.

As informações são da investigação realizada pelo Ministério da Aeronáutica à época.

Acidente anterior


Em 1962, o mesmo avião havia se envolvido em outro acidente. Dessa vez, no aeroporto do Galeão, no então estado da Guanabara — Rio de Janeiro atualmente.

Ao tentar baixar o trem de pouso, os pilotos observaram que um deles não havia descido. O avião ainda aguardou instruções da manutenção da empresa antes de pousar.

Após esgotar todos os recursos, os pilotos pousaram o avião sem um dos trens de pouso operando. A asa direita tocou a pista, causando leves danos.

Após manutenção, o avião voltou a voar normalmente. A investigação apontou que houve uma falha material em uma peça do sistema de destravamento do trem de pouso.

Via Alexandre Saconi (UOL)

domingo, 26 de julho de 2026

Curiosidade: Como surgiu o passaporte?

No passado, passaporte já teve até descrição: 'Nariz grande, boca torta'.


"Quando cheguei às províncias a ocidente do Eufrates, entreguei as credenciais do rei aos governadores". Nessa passagem bíblica, o Livro de Neemias, que trata da reconstrução da muralha de Jerusalém, traz uma das menções mais antigas daquilo que conhecemos hoje como passaporte. 

Neemias era um alto funcionário do rei persa Artaxerxes no século 5º a.C. Na história, ele pede autorização ao monarca para ajudar a reconstruir a cidade de seus antepassados, que no século anterior havia sido conquistada pela Babilônia.

"Que a vossa majestade se digne dar-me cartas para os governadores a ocidente do rio Eufrates, para que me deixem atravessar os seus territórios na viagem para Judá", escreveu.

Cartas de salvo-conduto, como a de Neemias, funcionaram por muitos séculos como instrumento para o trânsito seguro de um indivíduo ao entrar e sair de um reino. Na prática, elas não eram muito mais do que um acordo de cavalheiros por escrito, em que dois governantes que reconheciam suas mútuas autoridades estavam de acordo que o trânsito daquele súdito entre suas fronteiras não provocaria uma guerra desnecessária. É o que explica o britânico Martin Lloyd no livro "The Passport", sobre a história do documento.

Passaporte francês emitido em Berlim para o cozinheiro pessoal do ministro imperial russo
na Prússia, em 1815 (Imagem: Reprodução Twitter @ourpussports)
No século 16, o termo "passaporte" começou a ser usado. A palavra vem do francês antigo "passeport", porque designava o documento que autorizava o sujeito a passar por um porto e sair do país. A outra versão da origem do termo é muito semelhante e cita a mesmíssima função, mas em vez de sair pelo porto, a pessoa sai pela muralha da cidade, que os franceses também chamavam de "porte"

Conforme a comunidade internacional, os Estados modernos, as fronteiras mais bem definidas, o comércio e as relações internacionais e o intercâmbio cultural ganharam mais contornos, o documento ficou mais importante.

Passaporte do escravo Manoel, emitido em 1876, autorizando a locomoção a fim de
ser vendido (Imagem: Arquivo Público do Estado de São Paulo)
Em 1820, o Brasil, no contexto da abertura dos portos para as nações amigas de Portugal, em 1808, passou a exigi-lo: 

"Julgando indispensavel nas circumstancias actuaes, á segurança e conservação da publica tranquilidade deste Reino, que haja e mais exacto conhecimento de todas as pessoas que a elle vierem; sou servido ordenar o seguinte: Que a nenhuma pessoa, seja nacional ou estrangeira, de qualquer classe ou condição que fôr, se permittirá que desembarque e possa entrar em parte alguma deste Reino no Brazil, sem que venha munida e apresente o competente passaporte ou portaria, que verifique a sua qualidade, logar donde sahiu, e destino a que se dirige." - Decreto de 2 de dezembro de 1820.

"No fim do século, o fluxo imigratório era tão grande que a Constituição de 1891 dispensou o documento. Em tempo de paz, qualquer pessoa pode entrar no território nacional ou dele sair, com a sua fortuna e bens, quando e como lhe convier, independentemente de passaporte" - Artigo 72, parágrafo 10.

Passaporte de Santos Dumont de 1919 (Imagem: Arquivo Nacional/Domínio Público)

O passaporte como conhecemos


Em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, o documento voltou a ser obrigatório. Após o conflito, o mundo era outro — e o passaporte também. A Liga (ou Sociedade) das Nações, fundada em 1920 com a nada tranquila missão de manter a paz mundial, estimulou a ideia de se criar um padrão global para o passaporte, algo que ainda levaria um tempo para se concretizar.

Hoje nós reconhecemos um documento assim de longe: aquela cadernetinha com um brasão estampado, a foto da pessoa, o nome dela e outras informações básicas, carimbos dos países por onde passou etc.

Passaporte alemão emitido em 1935 (Imagem: Reprodução Twitter @ourpussports)
Mas, cem anos atrás, os passaportes tinham, digamos assim, muito mais liberdade editorial. O passaporte britânico, por exemplo, era uma página dobrada em oito partes guardada em uma capa de papelão. Além da foto e da assinatura do cidadão, vinha com descrições fíisicas, como nariz grande e cabelo loiro, e sinais particulares, como boca torta ou cicatriz. 

Tais descrições eram um resquício dos tempos em que os documentos não tinham fotos. "Não sei como as pessoas conseguiam entender que aquele indivíduo na frente delas era o indivíduo descrito no passaporte", tuitou o colecionador Neil Kaplan, que mantém um site e uma conta no Twitter para exibir e explicar sua vasta coleção de passaportes antigos acumulada ao longo de mais de 20 anos. 

Quando as fotografias começaram a ser adotadas no passaporte, não havia nada que lembrasse a padronização careta a que nos submetemos para fazer documentos.

No início, as fotos não tinham padrão, dando margem a imagens como a desse passporte
alemão de 1919 (Imagem: Reprodução Twitter @ourpussports)
Sem regras, as pessoas tinham apenas que entregar uma foto, e assim o faziam. Posavam de chapéu, de véu, tocando violão, remando. Reaproveitavam uma fotografia antiga, recortando o próprio rosto, ou arrancando a foto de um outro documento.

Segundo Kaplan, isso era comum entre refugiados, que tinham motivos de sobra para temer sair para encomendar uma foto. Afinal, era algo muito mais complexo, trabalhoso e caro se comparado à instantaneidade das imagens digitais de hoje, feitas com aparelhos que cabem no bolso e preservadas digitalmente na nuvem. Muita gente simplesmente não tinha dinheiro de sobra para isso.

Em tempos de fotos preto e branco ou mesmo sem foto, descrições pessoais
ajudavam na identificação (Imagem: Reprodução Twitter @ourpussports)

Comando e controle


O passaporte pode ter boas doses simbólicas de liberdade, sobre o direito de ir e vir, mas não era assim que muitas pessoas viam.

Nos Estados Unidos, uma lei entrou em vigor em 1924 com o intuito de lidar com uma "emergência": o alto fluxo de imigrantes de países que ameaçavam o "ideal hegemônico americano". A melhor forma de controlar isso e filtrar as pessoas que podiam entrar no país era por meio de um documento que escancarasse o país de origem delas. Cem anos atrás, o passaporte era um instrumento de controle. 

Além disso, o conceito de individualidade não era universal. Mulheres casadas, nas raras vezes em que viajavam sozinhas, não tinham direito a um passaporte com seu nome próprio, mas com o do marido: senhora Fulano de Tal.

Nos EUA, isso só mudou em 1937. No Brasil, onde elas também precisavam de autorização do marido para viajar, a regra só caiu com o Estatuto das Mulheres Casadas, de 1962.

Passaportes coletivos também eram comuns em determinadas épocas; aqui, o de uma
família sérvia, de 1920 (Imagem: Reprodução Twitter @ourpussports)
Passaportes coletivos também eram comuns, especialmente para grupos de refugiados que precisavam de uma saída rápida do país, como os judeus da Europa entreguerras. Mas o passaporte coletivo também tinha uso em realidades não trágicas, como grupos de trabalhadores e times esportivos que precisavam viajar.

Para os privilegiados de sempre, a novidade de precisar comprovar a identidade era muitas vezes ofensiva. Em 1929, o jornal "New York Times" reportou como obter um passaporte era "uma árdua provação" e que os estrangeiros lidam melhor com isso porque já estão acostumados com a burocracia que irrita o cidadão americano.

Passaporte dos EUA emitido para o procurador do Estado, Robert Yenney Thornton, para suas viagens ao Japão e ao Reino Unido, em 1960 (Imagem: Reprodução Twitter @ourpussports)
No ano seguinte, o jornal falou que as fotografias de passaportes são "notoriamente desagradáveis e nada lisonjeiras". 

"Um homem educado parece um bandido, uma senhorita de olhos brilhantes se torna uma imbecil de feições pesadas. Poucos viajantes sentem algo além de uma pontada de uma terrível surpresa, quase desacreditando, ao olhar pela primeira vez a fotografia que os identificará em um país estrangeiro" 

Pelo visto, a insatisfação quase generalizada com fotos de documentos é algo antigo. No mesmo artigo, o diário fala que tirar o passaporte é um tormento que gera ansiedade na classe média.

Porém, nos anos seguintes, com a consolidação de uma penca de documentos que exigiam a identificação fotográfica, da habilitação para dirigir a carteirinhas de clubes, o assunto deixou de ser polêmico e foi assimilado pela vida cotidiana. Só a frustração de ver sua foto em um novo documento ficou.

Via Felipe van Deursen (Nossa Viagem)

sábado, 25 de julho de 2026

Avião fantasma e casas inundadas: 5 falhas militares inacreditáveis

Se engana quem imagina que os militares só passam a imagem de seriedade e profissionalismo.


Em situações de guerras ou por ameaças internas geralmente os governos chamas as Forças Armadas para resolver essas questões. Ao longo da história vemos que através da guerra muitos conflitos foram solucionados. Mas isso não é uma regra e além de não resolverem o problema, os militares viraram motivo de piadas!

1. Os australianos contra os Emus


Todos nós sabemos que a Austrália é conhecida por ser um país bastante exótico. Animais que não costumam aparecer em outros lugares fazem morada e são símbolos nacionais. Além disso a própria vegetação do país é completamente diferente de tudo o que é “normal” em outros locais.

(Foto: Divulgação / Pixabay)
No ano de 1932 os fazendeiros locais estavam tendo bastante dificuldade com a colheita de trigo porque um grande bando de Emus estava devorando a plantação. Caso você não saiba, um Emu é uma ave grande de aproximadamente 1,80 de altura e que pode chegar a 40 km/h!

Os fazendeiros achavam que poderiam espantar essas aves gigantes com suas próprias armas, mas eles não contavam que se tratava de um bando de mais de 20 mil emus! Sozinhos os fazendeiros não iriam conseguir vencer as aves e convocaram a Artilharia Real Australiana.

Sob a liderança do major G.P.W. Meredith, foi enviado um contingente de soldados e milhares de cápsulas de munição para eliminarem os Emus. Mas o inacreditável aconteceu. Os animais conseguiam se esquivar das balas e pouquíssimos foram mortos. Até aqueles que eram atingidos pelas balas sobreviveram porque as penas eram densas e acabavam servindo como um “escudo”.

Meredith ficou revoltado e decidiu resolver as coisas com as próprias mãos. Subiu em um caminhão que tinha uma metralhadora instalada e partiu em direção aos animais. O major não só errou uma série de tiros como bateu com o veículo em uma árvore.

No final das contas, a Artilharia Real Australiana desistiu de matar os Emus e ofereceu munição para os fazendeiros locais tentarem vencer sozinhos. Sim, pássaros derrotaram o exército australiano em 1932.

2. A Marinha que afundou uma cidade


Depois da Era Meiji, o Japão se modernizou e buscou ser uma potência imperialista no leste asiático. Para isso era necessário possuir a maior frota naval daquela região, uma vez que estamos falando de um país que é uma ilha.

O projeto foi iniciado em 1940 e o objetivo não era apenas aumentar a quantidade de navios e sim construir o maior! Além de ser um navio incrivelmente grande ele portava armas enormes e de alto calibre, para realmente impressionar e assusta qualquer um. O navio foi chamado de Musashi e era equipado com armas a bordo que podiam disparar projéteis de 18 polegadas por mais de 42 quilômetros e canhões de 9 × 450 mm.

O navio japonês Musashi (Foto: Tobei Shiraishi / Wikipedia)
Eles só se esqueceram de uma coisa: do peso do navio. Quando o projeto terminou e Musashi foi finalmente levado ao mar, ele era tão grande e pesado que provocou ondas de 4 pés de altura e simplesmente inundou as casas ribeirinhas de Nagazaki.

Além de alagar as cidades próximas, por onde o gigantesco navio passava as outras embarcações eram deslocadas pelo movimento das águas gerando uma série de prejuízos!

3. Avião Fantasma


Muitas pessoas acreditam que pode existir assombrações ou algo parecido, mas até hoje não temos explicações sobre o que aconteceu com o 1º Tenente da aeronáutica dos EUA chamado Gary Foust.

Foust estava em um voo de teste no ano de 1970 quando percebeu que sua aeronave não estava funcionando como deveria. Durante o voo, o piloto perdeu o controle do caça por conta de problemas no giro do motor. Depois de muitas tentativas de colocar o seu F-106 no funcionamento correto, Gary Foust decide apertar o botão “ejetar” para evitar que uma tragédia acontecesse.


Quando ele fez isso esperou que sem o piloto o avião logo cairia e em seguida ele seria resgatado. Porém, para sua surpresa e para a surpresa dos técnicos da aeronáutica, o caça F-106 continuou planando sozinho, como se estivesse sendo pilotado por alguém.

O caça planou até pousar suavemente em um campo de trigo que estava coberto pela neve. Mesmo em solo, os mecânicos ficaram com medo de chegar perto do caça e esperaram acabar o combustível e a nave simplesmente desligar para analisarem o que aconteceu. É possível ver o testemunho do próprio Gary Foust sobre o ocorrido abaixo.

4. Selfie para o Facebook


Geralmente achamos que as atitudes mais irresponsáveis são exclusividades de jovens e de pessoas bêbadas. Mas e quando uma ação perigosa é cometida por alguém que está dirigindo um helicóptero?

Em 2010 dois pilotos estavam conduzindo um Helicopter Maritime Strike Squadron 41 (HSM-41). Tudo estava indo bem até que a aeronave faz uma manobra brusca em direção à água!


Os civis que estavam na região pegaram seus celulares para filmar o possível acidente enquanto se perguntavam se tinha acontecido alguma falha no motor ou se os pilotos tiveram um mal súbito.

A verdade é que o helicóptero estava funcionando perfeitamente, mas os pilotos decidiram soltar a mão do “volante” para tirar uma foto legal para mandar para o seu esquadrão. Parece inacreditável, mas é verdade! Caso você queira ver a manobra dos pilotos é só dar play no vídeo abaixo.

5. Golfinhos na guerra?


É claro que o Brasil não poderia ficar de fora dessa lista! Infelizmente o contexto em que essa trapalhada aconteceu foi bem sério, mais precisamente na Primeira Guerra Mundial.


Durante boa parte da Grande Guerra o Brasil era um país neutro que não estava participando da guerra. Isso mudou quando a Alemanha bombardeou dois navios brasileiros e em seguida o Brasil se aliou à Tríplice Entente para lutar ao lado dos EUA, Rússia, França e Inglaterra.

Em novembro de 1918 alguns navios brasileiros estavam na região do mediterrâneo, mais precisamente passando pelo Estreito de Gibraltar, quando os marinheiros avistaram algo que parecia ser um submarino alemão.

O almirante Fernando Frontin (Imagem: Domínio Público)
Mesmo sem ter muita visibilidade do alvo, o almirante Fernando Frontin autorizou o bombardeiro e o que se viu foi subir uma mancha de sangue no mar. O problema é que esse sangue não era de soldados inimigos e sim de Toninhas – uma espécie que se assemelha muito a um golfinho. No total, o bombardeio brasileiro eliminou 46 toninhas e esse evento ficou conhecido como a Batalha das Toninhas.

Via Aventuras na História

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Não foi só o 14-Bis: Santos Dumont também inventou 1º avião feito em série

Santos Dumont voa seu Demoiselle na França na primeira década do século 20 (Imagem: Acervo/FAB)
Os 150 anos do nascimento de Alberto Santos Dumont são celebrados no próximo dia 20 de julho. O brasileiro, além de ter criado o 14-Bis, também inventou uma série de outras aeronaves, como o Demoiselle, primeiro avião esportivo do mundo e o primeiro a ser fabricado em série.

O Demoiselle


Após o voo inaugural do 14-Bis em 1906, Santos Dumont continuou a desenvolver outros projetos. O mais bem-sucedido foi o Demoiselle, que teve seu voo inaugural já em 1907.

Esse avião teve quatro versões diferentes identificadas. Como as invenções de Dumont eram numeradas, os Demoiselles são as aeronaves de número 19 a 22, as últimas criadas pelo brasileiro.

Seu nome pode ser traduzido de duas formas, "libélula" ou "senhorita". Acreditava-se que o formato das asas e o material de seda que as cobriam traziam graça para o invento, por isso seu nome.


Tinha estrutura de bambu e metal, com telas feitas de tecido. Demorava cerca de 15 dias para ser construído individualmente.

Primeiro produzido em série


Réplica do Demoiselle em exposição no Museu Aeroespacial, no Rio de Janeiro
(Imagem: Suboficial Johnson Barros/FAB)
Construção em série foi facilitada pelo fato de Santos Dumont não ter patenteado o projeto. Antes disso, os aviões costumavam ser apenas protótipos ou exemplares únicos.

Desenhos do modelo foram divulgados em várias publicações. A revista Popular Mechanics, de junho de 1910, trazia em destaque na sua capa destacada a frase "Como construir um monoplano de Santos Dumont".

Apenas um fabricante, Clément-Bayard, teria produzido 50 unidades. A ideia era a fabricação de 100 exemplares, mas foi abandonada após a venda de apenas 15 unidades ao preço de 7.500 francos franceses cada à época.

Outras fontes afirmam que foram construídos 300 exemplares, sem contar aquelas produzidas por construtores individuais. Entretanto, não há registros oficiais de quantas unidades teriam sido feitas, já que a patente era livre e os projetos do avião circulavam abertamente e qualquer um poderia utilizá-las.

Quanto custava?


Os Demoiselles produzidos tinham diversos preços. Eles oscilavam dependendo dos materiais usados, do fabricante, motor, entre outros fatores.

O próprio Santos Dumont disse que sua construção não chegava a 5.000 francos. Em uma entrevista declarou que não tinha intenção de patentear sua invenção e que ele forneceria os desenhos da aeronave a quem os solicitasse.

Com o valor de 5.000 francos dava para comprar entre 10 e 50 cavalos do tipo exportação à época, ou cinco cavalos de alto padrão. A média salarial de um trabalhador homem francês girava em torno de 40 francos por dia naquele período.

Demoiselle, de Santos Dumont: Brasileiro estacionava o avião em frente à sua residência em Paris
 (Imagem: Acervo/FAB)
Clément-Bayard, que também fabricava automóveis, vendia seus Demoiselles na Europa por US$ 1.250. Ele também abriu uma escola de aviação que levava o nome do avião.

Nos Estados Unidos, um fabricante vendia Demoiselles sem motor por US$ 250. Em outro local do país, uma empresa comercializava a versão motorizada por US$ 1.000.

Como comparação, o carro Ford T, considerado um dos mais baratos à época, custava US$ 825 em 1908. Nos anos seguintes, com a produção em massa, esse valor cairia para US$ 290, ainda mais caro que um Demoiselle sem o motor.

Apesar do sucesso, Dumont nunca chegou a produzir em série seus inventos. Ele dizia que queria popularizar a aviação e que, a melhor forma para isso, era deixar seus projetos no domínio público.

Desenho do Demoiselle disponibilizado na revista Popular Mechanics em 1910
 (Imagem: Reprodução/Popular Mechanics)

Desaparecimento, acidente e fim dos voos


Santos Dumont, a bordo do Demoiselle, chegou a "desaparecer" durante um voo. Em uma tarde de 1909, ele decolou dos arredores de Paris e sumiu entre as nuvens de chuva.

Após horas sem notícias do brasileiro, seu mecânico avisou a polícia do sumiço. Este seria o primeiro caso de um desaparecimento de avião em voo da história.

Logo mais, descobriram que ele estava bem. Dumont havia pousado em um castelo após voar por 18 km e dormira na propriedade a convite de seus residentes.

Em 1910, Santos Dumont sofreu um acidente sério em um Demoiselle. Apesar das poucas testemunhas, informações constam que a aeronave caiu de uma altura de 33 metros.

Essa teria sido a última vez que ele pilotou um avião. Tempos depois, descobrira que, aos 36 anos, sofria de esclerose múltipla, momento em que dispensou toda sua equipe de mecânicos.

Morreu em julho de 1932, aos 59 anos, ao cometer suicídio. Seu coração foi removido secretamente e encontra-se em exposição no Musal (Museu Aeroespacial), no Rio de Janeiro até os dias de hoje.

Ficha técnica


Santos Dumont em um Demoiselle (Imagem: Acervo/FAB)
  • Demoiselle (Nº 20)
  • Comprimento: 6,2 metros
  • Envergadura (distância de ponta a ponta da asa): 5,5 metros
  • Altura: 1,3 metro
  • Peso vazio: 110 kg
  • Velocidade máxima: Cerca de 96 km/h
  • Capacidade: Um (apenas o piloto)
  • Autonomia: 15 quilômetros
O especialista em aviação Ricardo Padovese disponibiliza uma experiência em 3D onde é possível ver como era estar dentro do avião. Ela pode ser conferida aqui.


Fontes:

Musal (Museu Aeroespacial), da FAB (Força Aérea Brasileira)

Livros

"As lutas, a Glória e o Martírio de Santos Dumont", de Fernando Jorge; "Asas da Loucura: A Extraordinária Vida de Santos Dumont", de Paul Hoffman; "Clément-Bayard, Sem Medo e Sem Censura", de Gérard Hartmann; "Nas Alturas: Uma Biografia de Santos Dumont", de Rodolfo Nunhez; "Os Meus Balões", de Santos Dumont, com tradução e adendos de Arthur de Miranda Bastos; "Santos-Dumont, Aviador Esportista: O Primeiro Herói Olímpico do Brasil", de Lamartine Dacosta e Ana Miragaya.

Revistas

L'Aérophile, Popular Mechanics e Flight, todas da época.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Restaurando a história da aviação: o bombardeiro A-26 Invader da 2ª Guerra Mundial

Estimulados pelo uso de planadores pela Alemanha, os Aliados adotaram aeronaves sem motor para suas próprias campanhas na Segunda Guerra Mundial. Rebocados para as proximidades de seus alvos por aviões como o Douglas C-47 Skytrain, planadores Waco CG-4A como estes entraram em ação na Sicília, Normandia, Birmânia, Holanda e em outros lugares (Imagem: Adam Tooby)
"Commandos on Wings” era a manchete do artigo no Washington's Evening Star em 1º de novembro de 1942. O subtítulo dizia: “Eles são as tropas de planadores do Tio Sam, que caem silenciosamente do céu, tomam campos de aviação, explodem pontes e depósitos de munição.” O artigo incluía uma citação do Brigadeiro-General James Doolittle, herói de seu ataque aéreo homônimo ao Japão em abril anterior. “Não se esqueçam dos garotos sem motores”, ele disse. “Eles serão a ponta de lança dos futuros ataques aerotransportados.”

No entanto, uma década depois, o Exército dos EUA removeu os planadores de seu arsenal. Eles se tornaram obsoletos pela evolução do helicóptero. Helicópteros, não planadores, eram a ponta de lança dos futuros ataques aéreos.

A vida de combate do planador militar foi curta, mas aventureira. A Alemanha foi pioneira no uso de planadores na guerra e foi a primeira a implantá-los em combate, usando 41 planadores para capturar a fortaleza Eben-Emael da Bélgica em 10 de maio de 1940, juntamente com três pontes sobre o Canal Albert que o forte protegia. Os Aliados ficaram impressionados o suficiente para iniciar o seu próprio programa de planadores. Nos cinco anos seguintes, os Aliados utilizaram planadores em algumas das operações mais famosas da guerra, incluindo as invasões da Sicília, França e Alemanha. A embarcação sem motor também serviu no terreno desafiador da selva birmanesa.

No entanto, suas contribuições, assim como a bravura dos homens que pilotaram a aeronave e aqueles que treinaram como infantaria de planadores, não receberam o reconhecimento que merecem. "Isso foi simplesmente esquecido", refletiu o Oficial de Voo George E. Buckley do 434º Grupo de Transporte de Tropas, 74º Esquadrão de Transporte de Tropas, em um documentário de 2007 intitulado Silent Wings . "As pessoas nunca ouviram falar deles. As pessoas até hoje, que eram velhas o suficiente durante a Segunda Guerra Mundial para saber sobre as coisas, dizem: 'Planadores? Eu não sabia que eles usavam planadores.'"

O veterano da Primeira Guerra Mundial, Major William C. Lee (à esquerda), recebeu a tarefa de estudar o assunto “infantaria aérea” e ficou conhecido como o “Pai da Aerotransportada Americana”. Os pilotos de planadores recebiam suas asas quando terminavam o treinamento (Imagem: Coleções Especiais/Biblioteca da Universidade Estadual da Carolina do Norte; Arquivos HistoryNet)
A América chegou tarde ao conceito de guerra aerotransportada. Foi somente em 1º de maio de 1939 que o chefe do estado-maior dos EUA, General George C. Marshall, enviou um memorando ao Maj. Gen. George Lynch, seu chefe de infantaria, intitulado “Infantaria Aérea”. As instruções de Lynch eram “fazer um estudo com o propósito de determinar a conveniência de organizar, treinar e conduzir testes de um pequeno destacamento de infantaria aérea com vistas a verificar se nosso Exército deveria ou não conter uma unidade ou unidades dessa natureza”.

Lynch respondeu rápida e positivamente, concluindo que a infantaria aérea tinha usos praticáveis, mas outras prioridades deixaram o projeto de lado até o início da guerra na Europa em setembro de 1939. Em janeiro de 1940, Marshall fez do desenvolvimento de uma infantaria aérea uma prioridade e liderou sua formação e desenvolvimento ele atribuiu ao Major William C. Lee, um veterano da Primeira Guerra Mundial. Hoje Lee é referido como o “Pai da Aerotransportada Americana”, e diz-se que quando a 101ª Divisão Aerotransportada saltou para a Normandia nas primeiras horas de junho Em 6 de outubro de 1944, eles fizeram isso com um grito de “Bill Lee”. Mas Lee também foi influente na evolução do planador militar americano.

Em seu livro seminal 'Paratrooper!', Gerard Devlin – um veterano aerotransportado da Coreia e do Vietname – escreveu que para Lee o planador “representava um meio de entregar reforços de tropas e fornecimentos às suas tropas de paraquedas depois de terem aterrado em áreas remotas. Igualmente importante, o planador era um veículo aéreo para o lançamento de armas de grande calibre e veículos leves de rodas.”

O primeiro passo para atingir esse objetivo foi selecionar um fabricante entre os diversos protótipos que estavam sendo testados no Wright Field, em Ohio. O modelo escolhido foi o planador Waco CG-4A , que tinha 49 pés de comprimento e envergadura de 84 pés. Sua capacidade de carga era de 4.000 libras, o que equivalia a dois pilotos e 13 soldados combatentes.

Uma pintura de David Rowlands retrata os pousos de planadores na Birmânia pelo 1º Grupo de Comando Aéreo dos EUA para apoiar os Chindits sob o comando do general britânico Orde Wingate (Imagem: David Rowlands/Cranston Belas Artes)
Os planadores reais não estavam disponíveis até outubro de 1942, então, nesse ínterim, os recrutas do programa de treinamento de planadores tiveram que improvisar. Larry Kubale era um oficial de vôo recém-qualificado quando se ofereceu como voluntário para planadores em meados de 1942. “Naquela época, eles não tinham nada além de aviões a vela”, lembrou ele. “Os planadores de carga nem sequer foram inventados naquela época. Depois de cerca de sete semanas dessas coisas, eu era instrutor de hidroaviões e tinha cerca de dezesseis alunos em quatro turmas.”

Os pilotos passaram por treinamento de planadores em um dos três centros no Missouri, Nebraska e Carolina do Norte, e até o fim da guerra 10.000 deles estavam qualificados. O 88º Batalhão de Infantaria Aerotransportado se tornou a primeira unidade de infantaria de planadores dos Estados Unidos em maio de 1942. Mais tarde designado como 88º Regimento de Infantaria de Planadores, foi o primeiro de 11 regimentos desse tipo que serviram na guerra. Não era um sistema voluntário. Os soldados eram designados para regimentos de planadores e, para seu desgosto, não recebiam os US$ 50 a mais por mês que os paraquedistas recebiam por conta de seu dever perigoso. Havia outros ressentimentos. "Não tínhamos permissão nem para usar botas de salto", lembrou Ernest Platz, da 327ª Infantaria de Planadores, 101ª Divisão Aerotransportada. "Era uma questão de honra que os homens do planador não pudessem usar botas de salto de paraquedas."

Os planadores finalmente receberam suas botas de salto quando foram enviados para o exterior e, com o tempo, conquistaram também o respeito dos paraquedistas. “Conversei com os paraquedistas”, disse Platz. “Eles nunca entrariam em combate sob os planadores porque se houvesse um avião atingido, eles teriam a chance de sair de paraquedas. Mas se fôssemos atingidos, era isso. Você não tinha jeito, exceto fazer um pouso forçado. Então, recebemos um pouco de respeito deles.” Eventualmente, em julho de 1944, depois que as representações foram feitas ao Congresso, os planadores começaram a receber o mesmo pagamento que os paraquedistas.

Naquela época, os planadores já tinham provado sua coragem e eficácia.

A primeira grande operação de planador dos Aliados na guerra recebeu o codinome Ladbroke. Foi uma missão anglo-americana lançada na noite de 9 para 10 de julho de 1943. O destino era a costa oriental da Sicília , onde 1.600 homens da 1.ª Brigada Aérea deveriam desembarcar à frente da força invasora principal e capturar vários objetivos-chave. , incluindo a Ponte Grande, nos arredores de Siracusa.

Um total de 144 planadores, 136 deles CG-4As, decolaram da Tunísia, rebocados por rebocadores C-47 Dakota da 51ª Asa de Transporte de Tropas americana, bem como um punhado de bombardeiros RAF Albemarle.

O Waco CG-4A podia transportar 13 soldados e seus equipamentos ou até duas
toneladas de maquinário (Imagem: ©Corbis via Getty Images)
Os pilotos de planador eram todos britânicos. Um deles foi o sargento. Alec Waldron do Regimento de Pilotos de Planadores do 1º Batalhão. Para sua consternação, Waldron se viu atrás dos controles de um Waco CG-4A americano, conhecido pelos britânicos como CG-4 Hadrian. Waldron havia treinado em um Airspeed Horsa britânico . “O planador Adriano era uma aeronave bem diferente do Horsa”, refletiu. “Ele tinha uma carga alar menor, transportava cerca de metade da carga – 15 pessoas – tinha um ângulo de aproximação plano, levantava spoilers, pequenos flaps e certamente não era ideal do ponto de vista militar.” Para a operação Ladbroke, os planadores decolariam em alturas pré-determinadas e simplesmente “deslizariam mais ou menos para as zonas de pouso”.

Waldron temia que a operação “fosse um desastre”, e ele estava certo. Em muitos aspectos, ela estava condenada desde o início. As tripulações dos C-47s eram inadequadamente treinadas e, em alguns casos, de qualidade inferior aos aviadores designados para esquadrões de bombardeiros e caças. Foi uma história semelhante para os pilotos de planadores britânicos com praticamente nenhuma experiência de voo noturno e pouca oportunidade de se familiarizarem com o planador CG-4A.

Quando a armada aérea avistou a Sicília, os rebocadores de planadores começaram a subir até 6.000 pés, a altitude de lançamento dos planadores. Simultaneamente, navios da força de invasão aliada os avistaram e abriram fogo, acreditando que eram aeronaves do Eixo. A confusão, o pânico e a inexperiência fizeram com que a maioria dos pilotos de planadores se libertassem prematuramente. Noventa dos 144 planadores caíram no mar ao sul da Sicília e centenas de homens morreram afogados.

O planador de Waldron caiu no mar a cerca de 400 metros da costa, permitindo que os soldados dentro de sua embarcação nadassem até a praia. “Eu não sabia nadar”, ele disse. “Eu flutuava em uma asa... eles estavam nos metralhando para baixo de um feixe de holofote e eu levei um ricochete na minha coxa.”

Depois que Waldron passou cerca de sete horas na água, um navio aliado o resgatou e o transportou para um hospital em Malta.

Paul Gale, do Brooklyn, era navegador de um dos C-47 e lembrou que nenhuma das tripulações havia sido treinada adequadamente para uma missão noturna tão perigosa. Suas instruções eram para liberar os planadores a 3.000 metros da costa, mas, ele refletiu: “Como diabos você sabe quando está a 3.000 metros da costa à noite, sem qualquer instrumentação?” Nem havia desbravadores em terra para iluminar as zonas de desembarque. “Não existe um ponto de referência fixo”, disse ele. “Talvez você possa ver a costa, mas nunca havíamos praticado.”

“Come in Fighting” do artista James Dietz retrata o caos dos desembarques do 325º Regimento de Infantaria Planadora da 82ª Divisão Aerotransportada em 7 de junho de 1944, em apoio à invasão da Normandia (Imagem: James Dietz ©2023)
Mesmo assim, 12 planadores pousaram perto do alvo, com 83 soldados britânicos, o suficiente para tomar a Ponte Grande.

No geral, no entanto, e certamente em termos de vidas perdidas, a operação siciliana foi um fracasso, resultado de inexperiência e de uma cadeia de comando ruim. Mas em março de 1944, outra operação de planadores anglo-americanos forneceu um exemplo audacioso de como os planadores poderiam transportar forças especiais atrás das linhas inimigas.

Os Chindits eram uma unidade britânica criada em 1942 pelo general heterodoxo Orde Wingate. Seu segundo em comando era Michael Calvert, apelidado de "Mad Mike". A primeira operação Chindits foi uma patrulha de reconhecimento de longo alcance atrás das linhas japonesas na Birmânia no início de 1943. Um ano depois, sua tarefa era realizar ataques de guerrilha contra o inimigo no norte da Birmânia para apoiar a grande ofensiva do general Joseph Stilwell lá. Os Chindits usariam planadores CG-4A rebocados por C-47s do 1º Grupo de Comando Aéreo do Coronel Phil Cochran para penetrar profundamente na selva birmanesa. Sessenta e dois planadores decolaram de Lalaghat em 5 de março e 35 deles cobriram as 400 milhas até o alvo. Calvert estava a bordo de um dos planadores e se lembrou do momento em que a linha de reboque foi cortada. “Os motores do Dakota desapareceram e um silêncio tremendo nos envolveu, estranho e assustador após o som da maquinaria familiar e reconfortante que nos carregou pelo ar”, ele escreveu. Ele olhou para o piloto do planador, um americano mascador de chiclete chamado Lees, “que estava sentado relaxado como se estivesse dirigindo um Cadillac em uma ampla rodovia americana”.

Trezentos e cinquenta Chindits pousaram em segurança, junto com uma escavadeira trazida para limpar a pista de pouso de detritos de planadores. Nos dias seguintes, os transportadores de tropas Dakota fizeram dezenas de desembarques, trazendo 9.000 homens, 1.500 mulas e 250 toneladas de equipamento. Wingate emitiu uma ordem do dia na qual declarou que os Chindits “estão dentro das entranhas do inimigo”. Calvert concordou. “Graças aos rapazes da Força Aérea estávamos, de facto, dentro das entranhas do inimigo e cabia-nos agora começar a dar-lhe dor de estômago.”

Os britânicos e americanos deram atenção aos erros dispendiosos da Operação Ladbroke na Sicília enquanto planejavam a Operação Overlord, a invasão do norte da França no início de 1944. Os pilotos de rebocadores e planadores receberam treinamento mais completo, e as asas e fuselagem dos planadores foram pintadas de preto e listras brancas para que os artilheiros navais aliados pudessem identificá-los.

Um C-47 transporta um planador Waco no alto como parte da Operação Overlord. Ambas as aeronaves são pintadas com suas listras brancas do Dia D, uma tentativa de evitar o tipo de situação de fogo amigo que assolou as operações de planadores da Sicília (Imagem: Arquivos Nacionais)
Além dos quase 300 planadores CG-4A disponíveis para Overlord, havia mais de 500 planadores britânicos Horsa, que podiam transportar dois pilotos e 30 soldados totalmente equipados. O compensado Horsa também foi considerado mais manobrável por conta de seus grandes flaps “porta de celeiro” que facilitavam aos pilotos a execução de descidas íngremes em zonas de pouso menores. O Horsa tinha trem de pouso triciclo para decolagem. Uma vez no ar, o piloto descartaria as rodas e usaria um patim suspenso sob a fuselagem para pousar. Possuía nariz articulado para facilitar a carga e descarga de cargas, além de piso reforçado e rodas de nariz duplo para suportar o peso do veículo. Apesar das melhorias em relação ao CG-4As, os britânicos deram ao seu Horsa um apelido: o “caixão silencioso”.

A precisão de pouso do Horsa foi brilhantemente demonstrada 16 minutos depois da meia-noite de 6 de junho, quando o Major John Howard e 180 homens da Infantaria Ligeira de Oxfordshire e Buckinghamshire pousaram ao lado de duas pequenas pontes sobre o Rio Orne (Ponte Ranville) e o Canal de Caen ( Ponte Bénouville) na Normandia. A operação recebeu o codinome “Deadstick” e anteriormente seus pilotos haviam praticado pousos no sul da Inglaterra. Uma coisa que concluíram foi que 28 – e não 30 – soldados era a capacidade de carga correta com base em cada homem totalmente equipado pesando 240 libras.

Um fator foi deixado à sorte: o número e a localização dos obstáculos antiplanadores nazistas, apelidados de “Aspargos de Rommel”. Eram postes grossos cravados no chão em intervalos de 15 a 40 pés e tinham a intenção de atingir planadores desafortunados.

Howard estava no planador líder, pilotado pelo sargento. Jim Wallwork. À meia-noite e sete minutos, Wallwork soltou o cabo de náilon do rebocador. Durante os sete minutos seguintes, ele pilotou o planador de 6.000 pés para pouco mais de 500, reduzindo a velocidade no ar de 160 mph para 110 mph. Ao se aproximar da zona de pouso, Wallwork gritou por cima do ombro para os homens sentados em filas ao longo de ambos os lados da fuselagem. "Braçadeira!" Os 28 soldados deram os braços e levantaram as pernas para reduzir o risco de quebrá-las durante o pouso. “A expressão em seu rosto era algo que nunca se poderia esquecer”, disse Howard, da Wallwork, quando o planador pousou. “Eu podia ver aquelas enormes bolas de suor em sua testa e por todo o rosto.”

Quando o planador atingiu o solo francês foi mais uma colisão do que uma aterrissagem. Os soldados saíram do planador a apenas 30 metros da ponte Bénouville. O tenente Den Brotheridge foi morto a tiros na cabeça de seus homens, a primeira fatalidade aliada no Dia D, mas em 10 minutos o alvo estava garantido.

O General Aircraft Hamilcar foi o maior planador que os Aliados usaram
durante a guerra (Imagem: Popperfoto via Getty Images)
No final do Dia D, depois que dezenas de milhares de soldados aliados desembarcaram na Normandia de paraquedas ou embarcações de desembarque, planadores foram usados ​​em massa para reabastecer as tropas que lutavam para proteger a cabeça de praia. Quase 250 planadores desceram em duas zonas de pouso perto de Caen para reforçar a Divisão Aerotransportada Britânica, enquanto a oeste 176 planadores, parte da Operação Elmira, desceram para o interior de Utah Beach, algumas milhas ao sul da vila de Sainte-Mère-Église, em uma zona de pouso com pouco mais de uma milha de comprimento e 500 metros de largura que cobria os setores 82º e 101º Aerotransportados.

A maioria dos planadores – 140 – eram Horsas e um dos pilotos era Larry Kubale. Em seu planador havia um jipe, um trailer carregado de munições e dez homens. “Eles calcularam que cinquenta por cento de nós não conseguiríamos chegar à França e, dos cinquenta que conseguiram, metade deles voltaria depois que tudo acabasse”, lembrou ele.

O planador de Kubale caiu em um campo, mas continuou avançando até atingir algumas árvores. O impacto arrancou as asas e catapultou o copiloto para fora da aeronave. “O cara que voava conosco passou direto pelo nariz do planador”, lembrou Kubale. “Ele tinha o controle nas mãos… e passou direto pelo nariz, a coluna de direção nas mãos e o pé ainda no leme.” O copiloto quebrou a perna.

O trabalho de Kubale estava longe de terminar. Tendo ajudado a trazer reforços, ele agora se tornou um deles em campo. “Os caras que eu tinha comigo eram na verdade paraquedistas da 101ª Divisão Aerotransportada, então estive com eles por cerca de quatro ou cinco dias”, disse ele. Quando terminou, a Operação Elmira reabasteceu a American Airborne com 1.190 soldados, 67 jipes e 24 obuseiros. As baixas, em comparação com a operação na Sicília, foram leves, com 157 soldados mortos ou feridos e 26 dos 352 pilotos mortos ou feridos.

Houve outras operações significativas de planadores aliados em 1944, no sul da França e na Holanda. Na França, mais de 400 planadores Horsa e CG-4A foram usados ​​para a Operação Dragão em 15 de agosto, pousando cerca de 32 quilômetros para o interior para evitar que os alemães interrompessem os desembarques. A ação da Holanda fazia parte da Operação Market Garden , destinada a estabelecer uma ponte sobre o baixo Reno em Arnhem e abrir um caminho para o norte da Alemanha. Apesar do apoio de planadores, que transportaram mais de 14 mil soldados, além de armas e suprimentos, a operação fracassou. O último uso em massa de planadores foi na Operação Varsity em 24 de março de 1945, quando a 17ª Divisão Aerotransportada americana e a 6ª britânica usaram mais de 900 planadores para cruzar o Reno até a Alemanha. No geral, 21.680 paraquedistas e planadores pousaram em um total de 10 zonas em 1.696 aviões de salto e 1.346 planadores.

“Guns from Heaven”, de James Dietz, retrata o combate vivido pelos soldados dos 319º e 320º Batalhões de Artilharia de Campanha de Planadores e dos 376º e 456º Batalhões de Artilharia de Campanha Paraquedistas em setembro de 1944 durante a Operação Market Garden (Imagem: James Dietz©2023)
Entre os regimentos dos EUA que participavam do Varsity estava o 194º Regimento de Infantaria de Planadores, cujas instruções eram pousar ao norte de Wesel e tomar a travessia sobre o Rio Issel. O fogo terrestre foi mortal quando eles se aproximaram das zonas de pouso; doze aeronaves de reboque C-47 foram abatidas logo após soltarem seus planadores e outras 140 foram danificadas em vários graus. John J. Schumacher, de dezenove anos, estava em um dos planadores. Ele estava em um reboque duplo — dois planadores atrás de um único C-47 — com seu jipe ​​e seu passageiro. Ele se lembrava da terrível turbulência causada por quatro linhas de tráfego de aeronaves e algo mais. "Havia um som incomum enquanto você avançava que demorou um pouco para descobrir o que era, mas parecia pipoca", ele lembrou. "Eram balas e estilhaços atravessando as asas do planador... pop, pop, pop."

Ao se aproximarem da zona de pouso, os pilotos de planadores se depararam com um novo problema: má visibilidade causada por aeronaves acidentadas e em chamas, além de uma cortina de fumaça colocada pelos britânicos. Mesmo assim, os pilotos do planador de Schumacher conseguiram descer a nave inteira e então o ajudaram a levantar a cauda e abaixar o nariz o suficiente para que pudessem abri-la e soltar o jipe.

Outro planador usado na Operação Varsity foi o General Aircraft GL.49 Hamilcar. Introduzido no Dia D, foi a maior aeronave do gênero que os Aliados implantaram durante a guerra. Ele tinha uma envergadura de 110 pés e um comprimento de 68 pés e podia transportar uma carga útil de 36.000 libras, o que significava que podia transportar dois Bren Gun Carriers ou um pequeno tanque Tetrarch. O Hamilcar nunca mais foi usado em combate após a Operação Varsity.

Em 1946, os planadores começaram a ser eliminados das forças armadas americanas. A sua contribuição para o esforço de guerra desapareceu da memória, ao contrário da dos pára-quedistas mais glamorosos e entusiasmados. “É agravante”, admitiu George Buckley no documentário Silent Wings. “E essa é outra razão pela qual gosto de colecionar coisas de planadores e informar as pessoas sobre isso.”

Os pilotos de planador eram um pequeno e habilidoso grupo de irmãos, cuja existência perigosa cultivava não apenas a camaradagem, mas também um humor sarcástico, encapsulado em uma de suas canções favoritas, “The Glider Riders”. Cantado ao som de “The Daring Young Man on the Flying Trapeze”, um de seus versos dizia:

Deslizamos pelo ar em um estado tático,

Pular é inútil, é sempre tarde demais,

Não há rampa para o soldado que anda numa caixa,

E o salário é exatamente o mesmo.

Via Gavin Mortimer (28/06/2024) Durante a Segunda Guerra Mundial, planadores pareciam uma boa ideia. HistoryNet Recuperado de https://www.historynet.com/during-wwii-gliders-seemed-like-a-good-idea/.

domingo, 5 de julho de 2026

A história do piloto alemão que salvou avião dos EUA na 2ª Guerra Mundial

Um avião do modelo B-17 voa sobre uma fábrica de aviões Focke Wulf fighter na Alemanha
durante a 2ª Guerra Mundial (Imagem: Força Aérea dos EUA)
Em 1943, um ato de cavalheirismo e misericórdia impressionava em plena Segunda Guerra Mundial. Um caça alemão evitou derrubar um bombardeiro norte-americano, poupando a vida de seus tripulantes.

Quem era quem?

  • Franz Stigler era um piloto alemão com 28 anos à época. Ele comandava um caça Messerschmitt Bf 109 (também referido como Me 109), uma das aeronaves mais produzidas na história.
  • No comando do bombardeiro norte-americano estava Charles Brown, de 21 anos. Ele pilotava um B-17 Flying Fortress (Fortaleza Voadora), batizado como Ye Olde Pub (O Velho Bar).

Contexto da guerra

  • A Alemanha caminhava para a derrota no fim de 1943. Esse era o clima entre os altos oficiais mais antigos. A sensação não era a mesma entre aqueles em posição mais baixa na hierarquia.
  • O objetivo era prolongar a guerra para postergar a derrota. Naquele ano, a Alemanha já havia acumulado grandes derrotas, como na Batalha de Stalingrado e a perda da aliança com a Itália.
  • O marechal britânico Arthur "Bomber" Harris, comandante da campanha de bombardeio anglo-americana à época, defendia ataques aéreos contra cidades com civis alemães. O objetivo era destruir o moral dos cidadãos e motivar a pressão pelo fim do conflito.
  • Elmer Bendiner, tripulante de um dos B-17 durante a guerra, relatou o que Harris havia dito ao seu comandante quando assumiu o cargo. A fala está em seu livro "The Fall of Fortresses" (A Queda das Fortalezas), como esses aviões são conhecidos.

"Nós matamos muitos trabalhadores, fato, mas eu devo te lembrar de que, quando você destrói uma fábrica de caças, os alemães levam seis semanas para substituí-la. Quando eu mato um trabalhador, leva 20 anos para repor ele", declarou Arthur "Bomber" Harris.

A missão

Piloto Charlie Brown e a tripulação do B-17 batizado como Ye Olde Pub (Imagem: Força Aérea dos EUA)
  • No dia 20 de dezembro de 1943, a cidade de Bremen (Alemanha) era bombardeada pelas forças aliadas. Ali eram fabricados os caças Focke-Wulf Fw 190.
  • Brown e sua tripulação decolaram com o B-17 da Inglaterra na manhã daquele dia. Após algumas horas de voo, o bombardeiro começava a ser atacado pelas forças alemãs.
  • Um dos tiros que acertaram o avião rompeu a proteção transparente do nariz da aeronave. Com isso, fortes ventos entravam na cabine, em temperaturas de -50º C.
  • Após o lançamento das bombas, o B-17 passou a enfrentar novos problemas para voar. A situação se tornava cada vez mais crítica conforme o bombardeiro era atacado por caças Bf 109.
  • Os tripulantes do avião norte-americano foram feridos devido aos tiros que atingiam a fuselagem. A morfina, usada para aliviar a dor dos machucados, havia congelado devido às baixas temperaturas.

Um ato de honra


Messerschmitt Bf 109 (Me 109), um dos principais caças utilizados na Segunda Guerra Mundial
 (Imagem: German Federal Archive, via Wikimedia Commons)
Franz Stigler, que estava em solo, observou o avião e decolou seu caça Bf 109 em direção aos seus inimigos.

  • Ao se aproximar do bombardeiro, Stigler viu a tripulação de perto por meio dos rasgos na fuselagem. Eles estavam feridos e abatidos com o ataque, apesar do lançamento das bombas ter ocorrido com sucesso.
  • O militar alemão já havia perdido seu irmão na guerra. Em vez de abraçar a carnificina, escolheu ser piedoso em um contexto de morte.
  • Ele voava do lado do B-17 e dava sinal com a mão para que eles pousassem. Os pilotos do avião dos EUA balançaram a cabeça em negativa à proposta do piloto alemão.
  • Stigler poderia ser condenado por traição caso deixasse o avião fugir. Mesmo assim, ele escolheu protegê-los em vez de dar um tiro de misericórdia, atitude considerada um verdadeiro ato de cavalheirismo.
  • Stigler, então, afastou-se um pouco do bombardeiro para ser reconhecido por outros combatentes alemães. Com isso, evitavam atacar a aeronave, já que o caça estava muito perto e poderiam errar o alvo.
  • O alemão ainda corria outro risco. Outros pilotos ficaram em dúvida se o seu Bf 109 era aliado ou se era uma aeronave que havia sido capturada pelos inimigos.
  • Stigler se aproximou novamente dos norte-americanos e gritava "Suécia", mas eles não entendiam. O local seria o melhor para pousarem, já que poderiam cair antes de encontrarem um local seguro para pouso.
  • Apesar dos riscos, ele conseguiu escoltar o bombardeiro até fora da zona de guerra. Após cumprir seu objetivo, Franz Stigler retornou para o território alemão, e os norte-americanos conseguiram voltar para a Inglaterra.

Reencontro


Pilotos Charles Lester 'Charlie' Brown e Franz Stigler: Humanidade do alemão salvou a
tripulação dos EUA (Imagem: Montagem/Wikimedia Commons)
  • A duração do voo dos dois aviões lado a lado foi de cerca de 10 minutos. Brown não sabia o nome do piloto que havia poupado sua vida e a de sua tripulação.
  • Em 1986, Brown participava de um encontro de veteranos. Nesse momento, ele foi questionado sobre a missão mais memorável que teve na Segunda Guerra Mundial, citando o episódio.
  • Em 1990, ele recebeu uma carta de Stigler, que vivia no Canadá. Nela, o alemão dizia ser ele quem pilotava o caça Bf 109 que os protegeu para que saíssem vivos da Alemanha.
  • As forças aéreas dos dois países promoveram o reencontro. Brown e Stigler se tornaram grandes amigos, passando a se ver com frequência após isso.
  • Ambos morreram em 2008, com poucos meses de diferença. Stigler em março, e Brown em novembro daquele ano.

Fontes: Ricardo Lobato, analista-chefe da Equilibrium Consultoria e especialista em assuntos de defesa, e os livros "A Higher Call", de Adam Makos com Larry Alexander, e "The Fall of the Fortresses", de Elmer Bendiner.