Em 30 de maio de 1973, a aeronave Lockheed L-188 Electra, prefixo HK-1274, da SAM Colombia, batizada "Vênus" (foto abaixo), operava voo 601, do Aeroporto Internacional Alfonso Bonilla Aragón, em Cali, com destino ao Aeroporto Enrique Olaya Herrera Airport, em Medellín, com uma escala no Aeroporto Internacional Matecaña em Pereira, todas localidades da Colômbia. Havia 84 passageiros a bordo, além de pelo menos quatro tripulantes.
O sequestro começou após a escala do avião em Pereira, perpetrado por dois ex-jogadores de futebol paraguaios que inicialmente alegaram filiação ao Exército de Libertação Nacional (ELN).
Os passageiros do voo 601 da companhia aérea colombiana Sociedad Aeronáutica de Medellín (SAM) ainda não tinham terminado de desapertar os cintos de segurança após a decolagem do Lockheed L-188 Electra do aeroporto da cidade de Pereira, quando ouviram uma explosão – semelhante a um tiro – na parte traseira da aeronave e viram dois homens encapuzados e armados no local.
"Não se mexam, isto é um assalto!" gritou um deles, e mais de um dos passageiros surpresos pensou que fosse uma brincadeira. A situação era estranha porque a explosão não havia causado nenhum dano visível à aeronave, e a palavra usada pelo homem encapuzado — "assalto" — parecia incomum para anunciar o sequestro de um avião.
Assim começou o sequestro do voo HK-1274 da SAM. Nenhum dos passageiros imaginava, naquele momento, que seriam os protagonistas do sequestro de avião mais longo da história da América Latina e um dos mais longos da aviação mundial, durante o qual o avião da SAM permaneceria nas mãos dos sequestradores por mais de 60 horas, percorreria quase 24.000 quilômetros, sobrevoaria diversos países, faria 12 pousos e outras tantas decolagens em meio a tensas negociações com a companhia aérea e as autoridades, até finalmente chegar ao Aeroporto Internacional de Ezeiza, na Argentina, onde, surpreendentemente, a aeronave pousou vazia, sem qualquer vestígio dos dois sequestradores.
Talvez seja por isso que, quando um dos dois homens mascarados entrou na cabine de comando após subjugar os passageiros e comissários de bordo e anunciou, com a arma em punho, que se tratava de um sequestro, o Capitão Jaime Lucena ficou confuso com a exigência, feita com um sotaque que ele não reconheceu como colombiano.
"Isto é um sequestro", disse-lhe o homem mascarado.
"Diga-me o que você quer", respondeu Lucena.
O sequestrador pronunciou apenas uma palavra:
"Aruba", disse ele.
"Para Cuba?", perguntou o capitão, pensando ter entendido errado.
"Não, Aruba", insistiu o homem.
Eles estavam sobrevoando os Andes quando o capitão contatou a torre de controle do aeroporto de Pereira para informar que o avião havia sido sequestrado e que ele pousaria em Medellín para reabastecer e continuar sua viagem até a ilha caribenha de Aruba.
Em seguida, o sequestrador pegou o rádio e pediu para falar com um funcionário da companhia aérea. Quando um dos gerentes da SAM, o engenheiro Pirateque, respondeu do solo, o sequestrador disse que pertencia ao Exército de Libertação Nacional (ELN) — uma das organizações guerrilheiras mais ativas da Colômbia — e que exigia a libertação de um grupo de presos políticos, que ele não identificou, e um resgate de US$ 200.000 pela libertação dos passageiros. Caso suas exigências não fossem atendidas, ele ameaçou explodir o avião com os passageiros e a tripulação a bordo.
A exigência dos sequestradores parecia fazer sentido, pois algumas semanas antes do sequestro do voo 601, a polícia havia realizado uma série de operações em que prendeu artistas e professores universitários acusados de serem membros do ELN.
As negociações não haviam avançado quando o avião pousou em Medellín, reabasteceu e decolou novamente rumo ao Aeroporto Princesa Beatrice em Oranjestad, Aruba.
Quando chegaram a Aruba, os sequestradores ainda não haviam recebido nenhuma resposta da companhia aérea ou do governo colombiano, sob a presidência de Misael Pastrana Borrero. Parecia inacreditável, mas, não era, na verdade, incomum.
O governo colombiano tinha uma política de não negociar com sequestradores de aviões, então se recusou a libertar os reféns e deixou as negociações do resgate nas mãos da companhia aérea. Outro fato surpreendente é que, apesar do grande número de sequestros de aviões na época, não parecia haver protocolos definidos sobre o que a tripulação deveria fazer em tal situação.
"Perguntei a muitos comissários de bordo e pilotos, e nenhum deles havia sido instruído sobre o que fazer em caso de sequestro. Muitas vezes, nem o governo nem a polícia intervinham; tudo era deixado a cargo dos governadores locais", disse Di Massimo em entrevista à BBC.
Com toda a responsabilidade sobre seus ombros, o advogado de SAM, encarregado das negociações, fez uma contraproposta absurda: não pagariam US$ 200.000, mas apenas US$ 20.000. Então, os sequestradores aumentaram a aposta e exigiram US$ 300.000.
Contudo, nunca mais mencionaram a libertação dos presos políticos. Os negociadores ficaram impressionados com a rapidez com que abandonaram essa exigência, mas ninguém cogitou que o voo 601 não estivesse nas mãos de uma unidade de comando do ELN, muito menos que os sequestradores sequer fossem colombianos.
Apesar das negociações paralisadas, os sequestradores decidiram libertar um grupo de mulheres e todas as crianças a bordo. Não se tratava de um ato altruísta: queriam evitar a superlotação e reduzir o risco de a situação sair do controle.
Finalmente, ainda sem resposta, o avião da SAM decolou de Aruba às 3h15 da manhã do dia 31 de maio. O piloto recebeu ordens para voar até Lima, no Peru, mas pouco depois de partir do Aeroporto Internacional Princesa Beatriz, uma falha os obrigou a retornar.
Durante essa segunda parada na ilha caribenha, um grupo de sete passageiros conseguiu abrir uma janela de emergência e saltar de uma altura de cerca de cinco metros para a pista.
Em seu livro “Los Condenados del Aire”, Massimo Di Ricco relata como os sequestradores, desesperados após o ocorrido, forçaram o piloto a decolar novamente para Lima, mas desta vez também não chegaram ao Peru. Voaram por cerca de dez horas sobre a Costa Rica, o Panamá e El Salvador, onde os aeroportos desses países negaram-lhes permissão para pousar. Tiveram que retornar a Aruba mais uma vez.
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| Os futebolistas paraguaios Eusebio Borja e Francisco Solano López com a seleção equatoriana América de Ambato, em 1969 |
Trinta e duas horas haviam se passado desde o início do sequestro quando o avião HK-1274 pousou pela terceira vez em Aruba. Assim que tocou o solo, os sequestradores emitiram um ultimato: “Se não recebermos o dinheiro até as 11h da manhã de amanhã, haverá consequências.”
Apesar das ameaças, os dois sequestradores chegaram a um acordo forçado com a companhia aérea: permitiram uma inspeção mecânica da aeronave e concordaram com a substituição da tripulação.
“Eu disse ao sequestrador que o avião estava com pouco óleo e que os motores poderiam travar”, declarou o Capitão Lucena à imprensa, após ser libertado em Aruba, pouco depois de o avião, com uma nova tripulação, decolar novamente.
A nova tripulação embarcou no Lockheed L-188 Electra com uma mala contendo US$ 50.000 em dinheiro. Isso cumpriu a oferta feita pelo negociador da SAM para finalmente convencer os sequestradores a trocar a tripulação devido ao risco que a fadiga do piloto representava para o voo.
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| Eusebio Borja tinha 27 anos e Francisco Solano López tinha 31 quando o avião foi sequestrado (Foto: Radio Ambulante) |
Com uma nova tripulação e o avião em boas condições mecânicas, o voo 601 decolou novamente de Aruba e finalmente seguiu para Lima, onde pousou para reabastecer. Durante essa parada, os sequestradores libertaram outro grupo de passageiros e, em troca, receberam água e comida, pois seus suprimentos haviam acabado.
De lá, voaram para Mendoza, na Argentina, onde o avião reabasteceu e os passageiros restantes puderam desembarcar. De lá, o avião — segundo o anúncio dos sequestradores — deveria voar para Ezeiza, mas, no último minuto, mudaram os planos.
Em vez de voar diretamente para Buenos Aires, exigiram duas paradas inexplicáveis: o avião deveria pousar primeiro em Resistencia, no Chaco, e depois em Assunção, a capital do Paraguai. Ambas as paradas foram feitas à noite, e os sequestradores insistiram que as luzes do avião não fossem apagadas.
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| Notícias sobre a fuga dos reféns do avião HK-1274 da Sociedade Aeronáutica de Medellín |
A incursão dos dois atletas na Colômbia havia sido um fracasso, mas eles não estavam dispostos a voltar para casa de mãos vazias. Para ganhar uma boa quantia em dinheiro, planejaram o sequestro do avião, fingindo ser membros do ELN para dar mais credibilidade ao plano.
No aeroporto de Ezeiza, uma multidão de jornalistas aguardava a chegada do avião, na esperança de conseguir fotos e algumas palavras dos dois jogadores de futebol que se tornaram sequestradores. Não conseguiram nenhuma das duas coisas.
O choque foi imenso quando a tripulação do avião colombiano pousou e disse que nenhum dos dois estava a bordo. A história contada pelo piloto, copiloto e duas comissárias de bordo era difícil de acreditar.
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| A capa do jornal Clarin com a chegada do voo 601 ao Aeroporto Ezeiza |
O comandante da aeronave, Pedro Ramírez, manteve-se firme e recusou categoricamente que os deixasse sair com as mulheres. Em vez disso, propôs um "acordo de cavalheiros", como ele mesmo disse: se deixassem o avião sem levar as comissárias de bordo, toda a tripulação se comprometeria a não notificar as autoridades até que a aeronave chegasse ao Aeroporto de Ezeiza.
Um desembarcou em Resistencia e o outro em Assunção. Não está claro exatamente como conseguiram escapar da polícia e dos seguranças em ambos os aeroportos na escuridão da noite.
"Fizemos um acordo de cavalheiros com eles e cumprimos nossa palavra", foi a única explicação dada pelo Capitão Ramírez quando questionado. O copiloto e os comissários de bordo disseram praticamente a mesma coisa.
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| Francisco Solano López, o único detido dos dois sequestradores (Imagem: ABC Color) |
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| Outra imagem de Solano López detido |
Em 2024, a Netflix lançou uma série dramática chamada "O Sequestro do Voo 601" (em espanhol: "Secuestro del vuelo 601"), uma produção colombiana inspirada nos eventos. A série é baseada em um livro do escritor italiano Massimo Di Ricco chamado "Los condenados del aire".
Por Jorge Tadeu da Silva (Site Desastres Aéreos) com Wikipédia, ASN e Infobae








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