sábado, 30 de maio de 2026

Aconteceu em 30 de maio de 1973: O longo sequestro do voo SAM Colombia 601 por dois ex-jogadores de futebol


Em 30 de maio de 1973, a aeronave Lockheed L-188 Electra, prefixo HK-1274, da SAM Colombia, batizada "Vênus" (foto abaixo), operava voo 601, do Aeroporto Internacional Alfonso Bonilla Aragón, em Cali, com destino ao Aeroporto Enrique Olaya Herrera Airport, em Medellín, com uma escala no Aeroporto Internacional Matecaña em Pereira, todas localidades da Colômbia. Havia 84 passageiros a bordo, além de pelo menos quatro tripulantes.


O sequestro começou após a escala do avião em Pereira, perpetrado por dois ex-jogadores de futebol paraguaios que inicialmente alegaram filiação ao Exército de Libertação Nacional (ELN). 

Os passageiros do voo 601 da companhia aérea colombiana Sociedad Aeronáutica de Medellín (SAM) ainda não tinham terminado de desapertar os cintos de segurança após a decolagem do Lockheed L-188 Electra do aeroporto da cidade de Pereira, quando ouviram uma explosão – semelhante a um tiro – na parte traseira da aeronave e viram dois homens encapuzados e armados no local.

"Não se mexam, isto é um assalto!" gritou um deles, e mais de um dos passageiros surpresos pensou que fosse uma brincadeira. A situação era estranha porque a explosão não havia causado nenhum dano visível à aeronave, e a palavra usada pelo homem encapuzado — "assalto" — parecia incomum para anunciar o sequestro de um avião.

Assim começou o sequestro do voo HK-1274 da SAM. Nenhum dos passageiros imaginava, naquele momento, que seriam os protagonistas do sequestro de avião mais longo da história da América Latina e um dos mais longos da aviação mundial, durante o qual o avião da SAM permaneceria nas mãos dos sequestradores por mais de 60 horas, percorreria quase 24.000 quilômetros, sobrevoaria diversos países, faria 12 pousos e outras tantas decolagens em meio a tensas negociações com a companhia aérea e as autoridades, até finalmente chegar ao Aeroporto Internacional de Ezeiza, na Argentina, onde, surpreendentemente, a aeronave pousou vazia, sem qualquer vestígio dos dois sequestradores.

Talvez seja por isso que, quando um dos dois homens mascarados entrou na cabine de comando após subjugar os passageiros e comissários de bordo e anunciou, com a arma em punho, que se tratava de um sequestro, o Capitão Jaime Lucena ficou confuso com a exigência, feita com um sotaque que ele não reconheceu como colombiano.

"Isto é um sequestro", disse-lhe o homem mascarado.

"Diga-me o que você quer", respondeu Lucena.

O sequestrador pronunciou apenas uma palavra: 

"Aruba", disse ele.

"Para Cuba?", perguntou o capitão, pensando ter entendido errado.

"Não, Aruba", insistiu o homem.

Eles estavam sobrevoando os Andes quando o capitão contatou a torre de controle do aeroporto de Pereira para informar que o avião havia sido sequestrado e que ele pousaria em Medellín para reabastecer e continuar sua viagem até a ilha caribenha de Aruba.

Em seguida, o sequestrador pegou o rádio e pediu para falar com um funcionário da companhia aérea. Quando um dos gerentes da SAM, o engenheiro Pirateque, respondeu do solo, o sequestrador disse que pertencia ao Exército de Libertação Nacional (ELN) — uma das organizações guerrilheiras mais ativas da Colômbia — e que exigia a libertação de um grupo de presos políticos, que ele não identificou, e um resgate de US$ 200.000 pela libertação dos passageiros. Caso suas exigências não fossem atendidas, ele ameaçou explodir o avião com os passageiros e a tripulação a bordo.

A exigência dos sequestradores parecia fazer sentido, pois algumas semanas antes do sequestro do voo 601, a polícia havia realizado uma série de operações em que prendeu artistas e professores universitários acusados ​​de serem membros do ELN.


As negociações não haviam avançado quando o avião pousou em Medellín, reabasteceu e decolou novamente rumo ao Aeroporto Princesa Beatrice em Oranjestad, Aruba.

Quando chegaram a Aruba, os sequestradores ainda não haviam recebido nenhuma resposta da companhia aérea ou do governo colombiano, sob a presidência de Misael Pastrana Borrero. Parecia inacreditável, mas, não era, na verdade, incomum.

O governo colombiano tinha uma política de não negociar com sequestradores de aviões, então se recusou a libertar os reféns e deixou as negociações do resgate nas mãos da companhia aérea. Outro fato surpreendente é que, apesar do grande número de sequestros de aviões na época, não parecia haver protocolos definidos sobre o que a tripulação deveria fazer em tal situação. 

"Perguntei a muitos comissários de bordo e pilotos, e nenhum deles havia sido instruído sobre o que fazer em caso de sequestro. Muitas vezes, nem o governo nem a polícia intervinham; tudo era deixado a cargo dos governadores locais", disse Di Massimo em entrevista à BBC.

Com toda a responsabilidade sobre seus ombros, o advogado de SAM, encarregado das negociações, fez uma contraproposta absurda: não pagariam US$ 200.000, mas apenas US$ 20.000. Então, os sequestradores aumentaram a aposta e exigiram US$ 300.000.

Contudo, nunca mais mencionaram a libertação dos presos políticos. Os negociadores ficaram impressionados com a rapidez com que abandonaram essa exigência, mas ninguém cogitou que o voo 601 não estivesse nas mãos de uma unidade de comando do ELN, muito menos que os sequestradores sequer fossem colombianos.

Apesar das negociações paralisadas, os sequestradores decidiram libertar um grupo de mulheres e todas as crianças a bordo. Não se tratava de um ato altruísta: queriam evitar a superlotação e reduzir o risco de a situação sair do controle.


Finalmente, ainda sem resposta, o avião da SAM decolou de Aruba às 3h15 da manhã do dia 31 de maio. O piloto recebeu ordens para voar até Lima, no Peru, mas pouco depois de partir do Aeroporto Internacional Princesa Beatriz, uma falha os obrigou a retornar.

Durante essa segunda parada na ilha caribenha, um grupo de sete passageiros conseguiu abrir uma janela de emergência e saltar de uma altura de cerca de cinco metros para a pista.

Em seu livro “Los Condenados del Aire”, Massimo Di Ricco relata como os sequestradores, desesperados após o ocorrido, forçaram o piloto a decolar novamente para Lima, mas desta vez também não chegaram ao Peru. Voaram por cerca de dez horas sobre a Costa Rica, o Panamá e El Salvador, onde os aeroportos desses países negaram-lhes permissão para pousar. Tiveram que retornar a Aruba mais uma vez.

Os futebolistas paraguaios Eusebio Borja e Francisco Solano López com a
seleção equatoriana América de Ambato, em 1969
Trinta e duas horas haviam se passado desde o início do sequestro quando o avião HK-1274 pousou pela terceira vez em Aruba. Assim que tocou o solo, os sequestradores emitiram um ultimato: “Se não recebermos o dinheiro até as 11h da manhã de amanhã, haverá consequências.”

Apesar das ameaças, os dois sequestradores chegaram a um acordo forçado com a companhia aérea: permitiram uma inspeção mecânica da aeronave e concordaram com a substituição da tripulação.

“Eu disse ao sequestrador que o avião estava com pouco óleo e que os motores poderiam travar”, declarou o Capitão Lucena à imprensa, após ser libertado em Aruba, pouco depois de o avião, com uma nova tripulação, decolar novamente.

A nova tripulação embarcou no Lockheed L-188 Electra com uma mala contendo US$ 50.000 em dinheiro. Isso cumpriu a oferta feita pelo negociador da SAM para finalmente convencer os sequestradores a trocar a tripulação devido ao risco que a fadiga do piloto representava para o voo.

Eusebio Borja tinha 27 anos e Francisco Solano López tinha 31 quando o avião foi sequestrado
(Foto: Radio Ambulante)
Com uma nova tripulação e o avião em boas condições mecânicas, o voo 601 decolou novamente de Aruba e finalmente seguiu para Lima, onde pousou para reabastecer. Durante essa parada, os sequestradores libertaram outro grupo de passageiros e, em troca, receberam água e comida, pois seus suprimentos haviam acabado.

De lá, voaram para Mendoza, na Argentina, onde o avião reabasteceu e os passageiros restantes puderam desembarcar. De lá, o avião — segundo o anúncio dos sequestradores — deveria voar para Ezeiza, mas, no último minuto, mudaram os planos.

Em vez de voar diretamente para Buenos Aires, exigiram duas paradas inexplicáveis: o avião deveria pousar primeiro em Resistencia, no Chaco, e depois em Assunção, a capital do Paraguai. Ambas as paradas foram feitas à noite, e os sequestradores insistiram que as luzes do avião não fossem apagadas.

Notícias sobre a fuga dos reféns do avião HK-1274 da Sociedade Aeronáutica de Medellín
Quando o Lockheed L-188 Electra finalmente pousou no Aeroporto Internacional de Ezeiza, na Argentina, as autoridades colombianas já sabiam que os dois sequestradores do voo 601 da SAM não eram colombianos, nem tinham qualquer ligação com o grupo guerrilheiro ELN. Eram dois jogadores de futebol paraguaios que, alguns anos antes, haviam tentado a sorte em um time de Pereira. Eles foram identificados como Francisco Solano López, de 31 anos, e Eusebio Borja, de 27.

A incursão dos dois atletas na Colômbia havia sido um fracasso, mas eles não estavam dispostos a voltar para casa de mãos vazias. Para ganhar uma boa quantia em dinheiro, planejaram o sequestro do avião, fingindo ser membros do ELN para dar mais credibilidade ao plano.

No aeroporto de Ezeiza, uma multidão de jornalistas aguardava a chegada do avião, na esperança de conseguir fotos e algumas palavras dos dois jogadores de futebol que se tornaram sequestradores. Não conseguiram nenhuma das duas coisas.

O choque foi imenso quando a tripulação do avião colombiano pousou e disse que nenhum dos dois estava a bordo. A história contada pelo piloto, copiloto e duas comissárias de bordo era difícil de acreditar.

A capa do jornal Clarin com a chegada do voo 601 ao Aeroporto Ezeiza
López e Borja planejavam abandonar o avião durante essas duas escalas inexplicáveis: Resistencia e Assunção, levando metade do resgate, ou seja, US$ 25.000 cada. Eles se aproveitariam da escuridão e da falta de iluminação nas pistas do aeroporto. Para garantir que não seriam perseguidos, cada um faria uma comissária de bordo refém, prometendo libertá-las quando se sentissem seguros.

O comandante da aeronave, Pedro Ramírez, manteve-se firme e recusou categoricamente que os deixasse sair com as mulheres. Em vez disso, propôs um "acordo de cavalheiros", como ele mesmo disse: se deixassem o avião sem levar as comissárias de bordo, toda a tripulação se comprometeria a não notificar as autoridades até que a aeronave chegasse ao Aeroporto de Ezeiza.

Um desembarcou em Resistencia e o outro em Assunção. Não está claro exatamente como conseguiram escapar da polícia e dos seguranças em ambos os aeroportos na escuridão da noite.

"Fizemos um acordo de cavalheiros com eles e cumprimos nossa palavra", foi a única explicação dada pelo Capitão Ramírez quando questionado. O copiloto e os comissários de bordo disseram praticamente a mesma coisa.

Francisco Solano López, o único detido dos dois sequestradores (Imagem: ABC Color)
Francisco Solano López foi capturado cinco dias após desaparecer no aeroporto de Assunção, quando tentava usar parte de seus US$ 25.000 para comprar uma casa perto da residência de sua família. A ditadura de Alfredo Stroessner o exibiu algemado e encapuzado em uma coletiva de imprensa anunciando sua extradição para a Colômbia, onde seria julgado. Ele foi condenado a cinco anos de prisão e, após cumprir a pena, nunca mais se ouviu falar dele.

Outra imagem de Solano López detido
Em contraste, Eusebio Borja nunca foi capturado. Seu rastro esfriou na mesma noite em que desembarcou do avião em Resistencia com US$ 25.000 em uma mala. Mais de cinquenta anos após o espetacular sequestro do voo 601, seu paradeiro permanece desconhecido, assim como se ele está vivo ou morto.


Em 2024, a Netflix lançou uma série dramática chamada "O Sequestro do Voo 601" (em espanhol: "Secuestro del vuelo 601"), uma produção colombiana inspirada nos eventos. A série é baseada em um livro do escritor italiano Massimo Di Ricco chamado "Los condenados del aire".

Por Jorge Tadeu da Silva (Site Desastres Aéreos) com Wikipédia, ASN e Infobae

Aconteceu em 30 de maio de 1972: Acidente com o voo de treinamento 9570 da Delta Air Lines em Dallas, no Texas


Em 30 de maio de 1972, o voo 9570 da Delta Air Lines caiu ao tentar pousar no Aeroporto Internacional Greater Southwest (GSW) em Fort Worth, Texas, durante um voo de treinamento. Todos os quatro ocupantes a bordo do voo morreram. Determinou-se que o acidente foi causado pela aeronave voando através da turbulência da esteira e levou a mudanças radicais nos procedimentos para manter uma distância mínima de segurança atrás da aeronave, o que gerou turbulência substancial da esteira.

Aeronave e tripulação



O voo 9570 da Delta Air Lines foi um voo de treinamento operado pelo McDonnell Douglas DC-9-14, prefixo N3305L (foto acima). A aeronave foi fabricada em 1965, e operava por 18.998 horas no momento do acidente. 

O objetivo do voo era fazer a verificação de voo de três pilotos Delta. O voo 9570 tinha um total de quatro ocupantes, incluindo a tripulação de voo de dois homens que realmente pilotavam a aeronave, um piloto adicional aguardando sua verificação de voo, que teria sido colocado na parte traseira, e um inspetor de operações da FAA, que estava a bordo para verificação de proficiência, e estava viajando no "assento de salto", um assento dobrável entre o piloto e o copiloto, que também estava envolvido no acidente com o voo 1114 da American Airlines, um voo de treinamento realizado com um McDonnell Douglas McDonnell Douglas DC-10. O voo 1114 não foi danificado ou afetado pelo acidente.

Acidente


Em 30 de maio de 1972, o vôo 9570 partiu de Dallas Love Field em Dallas, Texas às 06h48, e seguiu para GSW para realizar aterrissagens e aproximações de treinamento. O voo 9570 solicitou uma aproximação ILS para a pista 13 do GSW. A autorização foi concedida e o voo 9570 foi informado de que o DC-10 da American Airlines já estava no padrão de tráfego para realizar "pousos de toque e arranque" no GSW. O vpo 9570 pousou sem incidentes.

Após o pouso no GSW, o voo 9570 recebeu novas autorizações de decolagem e subida, fez manobras de treinamento incluindo uma aproximação falhada ILS. O voo 9570 então solicitou aprovação para pouso na Pista 13, atrás do American DC-10, que também estava voltando para um pouso na mesma pista. 

O controlador de tráfego aéreo autorizou o voo 9570 para pousar na Pista 13 com um aviso "cuidado, turbulência". O controlador não informou ao DC-9 que eles estavam seguindo um "pesado", embora o controlador tenha avisado que eles estavam seguindo um DC-10 que pilotos experientes deveriam saber que era uma aeronave "pesada".

Ao se aproximar da pista, o DC-9 começou a oscilar em torno do eixo de rolagem, então rolou rapidamente para a direita. Depois de rolar 90 graus para a direita, a ponta da asa direita atingiu a pista. 

O avião continuou a girar para a direita, até que a fuselagem atingiu a pista em uma posição quase invertida. A aeronave foi danificada por forças de impacto e destruída por um incêndio subsequente. Todos os quatro ocupantes foram mortos.

Investigação


O National Transportation Safety Board (NTSB) investigou o acidente. A forma do acidente sugeriu ao NTSB que o acidente foi causado por uma esteira de turbulência do DC-10 que se seguiu. 

Antes do acidente do voo 9570, a Federal Aviation Administration não tinha padrões específicos de separação de aeronaves com base na turbulência da esteira. Em vez disso, a separação foi determinada pelos limites de resolução do radar de controle de tráfego aéreo e, em alguns casos, pelas restrições de ocupação da pista. 

No entanto, o uso crescente de grandes jatos que causam turbulência de esteira substancial, como o Boeing 747 , DC-10 e Lockheed L-1011 TriStar nos últimos anos, aumentou o risco de acidentes relacionados à turbulência de esteira. No entanto, antes do voo 9570, a maioria dos acidentes envolvendo esteira de turbulência envolvia aeronaves menores do que o DC-9.

Turbulência de esteira vista após uma aeronave passar por uma fumaça colorida,
semelhante aos testes realizados pelo NTSB
Reconhecendo a turbulência da esteira como uma causa potencial, o NTSB realizou atividades de teste e pesquisa para confirmar sua hipótese. O NTSB realizou teste de vórtice de esteira no National Aviation Facilities Experimental Center no Aeroporto de Atlantic City em Nova Jersey, inicialmente usando um Lockheed L-1011 (um trijet semelhante em tamanho ao DC-10) e, posteriormente, usando um DC-10 emprestado ao NTSB. 

Fumaça colorida foi emitida da torre de controle do aeroporto, e observações da fumaça quando uma aeronave L-1011 ou DC-10 voou pela torre forneceu informações sobre a duração de tempo que um vórtice permaneceria após a aeronave estar limpa.

Os testes do NTSB demonstraram que a esteira de turbulência causada por uma aeronave do tamanho do DC-10 foi suficiente para perturbar o vôo de um DC-9 seguinte com a magnitude experimentada pelo voo 9570. Após esses testes, o provável A causa do acidente foi determinada como: "Um encontro com um vórtice gerado por um jato "pesado" anterior que resultou em uma perda involuntária de controle do avião durante a aproximação final. Embora alertada para a expectativa de turbulência, a tripulação não tinha informações suficientes para avaliar com precisão o perigo ou a possível localização do vórtice. Os procedimentos existentes da FAA para controlar o voo VFR não forneciam a mesma proteção contra um encontro de vórtice que era fornecida para voos recebendo vetores de radar em condições IFR ou VFR."

Legado


Embora o risco para aeronaves pequenas já fosse conhecido, a queda do voo 9570 demonstrou que aeronaves de médio porte como o DC-9 também eram vulneráveis ​​à turbulência. Como resultado, a investigação do voo 9570 levou a mudanças na distância mínima que todas as aeronaves de pequeno e médio porte devem manter ao seguir aeronaves "pesadas" e os procedimentos para manter essas distâncias.

O NTSB recomendou que a FAA desenvolvesse novos padrões mínimos de separação de aeronaves que levassem em consideração os efeitos da separação da esteira de aeronaves maiores nas aeronaves seguintes. 

Em resposta, a FAA desenvolveu requisitos mínimos de separação obrigatórios com base no peso máximo de decolagem. Todas as aeronaves com peso superior a 300.000 libras seriam classificadas como "pesadas". 


De acordo com as novas regras, qualquer avião mais leve que um "pesado" deve manter pelo menos cinco milhas de distância atrás de uma aeronave "pesada"; um "pesado" atrás de outro "pesado" deve manter quatro milhas de separação.

Esses regulamentos se tornaram o padrão para manter uma distância mínima de segurança entre aeronaves; a definição de "pesado" foi revisada para baixo para aeronaves pesando pelo menos 255.000 libras em 1994.

Por Jorge Tadeu da Silva (Site Desastres Aéreos) com Wikipedia

Aconteceu em 30 de maio de 1961: 61 mortos na queda do voo Viasa 897 na costa de Portugal


O voo 897 da Viasa foi um serviço internacional regular de passageiros Roma - Madrid - Lisboa - Santa Maria - Caracas que caiu no Oceano Atlântico, na costa de Portugal, em 30 de maio de 1961, logo após a decolagem do Aeroporto da Portela. Não houve sobreviventes entre os 61 ocupantes da aeronave.


Aeronave


Um Douglas DC-8-53 da VIASA semelhante à envolvida no acidente
Batizada de 'Fridtjof Nansen', a aeronave envolvida no acidente era o Douglas DC-8-53, prefixo PH-DCL, de propriedade da KLM e operado em nome da Viasa. Com o número do construtor 45615/131, a fuselagem era a mais nova do tipo na frota da KLM na época do acidente; havia acumulado 209 horas de voo.

Voo e acidente


A queda do voo 897 da Viasa ocorreu na terceira etapa de uma viagem que se originou em Roma, na Itália, e estava programada para ser concluída em Caracas, na Venezuela. Paradas intermediárias seriam feitas em Madrid, na Espanha, Lisboa e na Ilha de Santa Maria, nos Açores, em Portugal.

No momento em que o avião decolou de Lisboa à 01h15, com 47 passageiros e 14 tripulantes, o céu noturno tinha uma base de nuvem de 3.700 pés (1.100 m). Poucos minutos após a decolagem, o DC-8 entrou em um mergulho em espiral para a esquerda logo após enviar duas mensagens curtas ao Controle de Tráfego Aéreo. 

O piloto corrigiu para a direita, mas a aeronave atingiu o mar, com um passo angular de aproximadamente 25° nariz para baixo. Todos os 61 ocupantes da aeronave morreram no acidente.


Investigação


(Imagem via herdeirodeaecio.blogspot.com)
A causa da queda do voo 897 da Viasa nunca foi determinada pelas autoridades portuguesas ou holandesas. O relatório oficial fora de Portugal concluiu "Não obstante uma investigação muito exaustiva e demorada, na qual colaboraram muitas autoridades e peritos, não foi possível estabelecer uma causa provável para o acidente."


A Holanda, como estado de registro da aeronave, comentou: "Embora não haja indicações diretas a este respeito, o Conselho considera possível que o acidente tenha sido causado pelo piloto ou pilotos sendo induzidos em erro por falha de instrumento, em particular do horizonte artificial , ou para o piloto ter sido distraído, de forma que um desvio sério da trajetória normal de voo não foi descoberto a tempo."


Na época em que ocorreu, o voo 897 foi o terceiro acidente fatal de um grande jato desde que entrou em serviço em 1958. Foi o pior acidente de aviação civil alguma vez ocorrido em Portugal até à queda do voo da TAP Air Portugal 425 em 1977.

Por Jorge Tadeu da Silva (Site Desastres Aéreos) com ASN e Wikipedia

Aconteceu em 30 de maio de 1947: A queda do voo 605 da Eastern Air Lines em Maryland (EUA)


O voo 605 da Eastern Air Lines foi um voo doméstico nos Estados Unidos de Newark a Miami em 30 de maio de 1947. O voo caiu perto de Bainbridge, em Maryland, causando a morte de todos os 53 passageiros e tripulantes a bordo, no que foi então o pior desastre no história da aviação comercial norte-americana.

Um Douglas DC-4 Skymaster similar ao envolvido no acidente
A aeronave DC-4, número de série 18380, foi construída em 1944 e foi entregue oficialmente como um C-54B Skymaster à Força Aérea dos Estados Unidos em outubro de 1944. No mesmo dia foi transferida com a designação R5D-2 para os Estados Unidos Marinha dos Estados. Foi alugado para a Eastern Air Lines em 29 de novembro de 1945 com o número de frota 708.

O avião Douglas C-54B-15-DO (DC-4) Skymaster, prefixo NC88814, da Eastern Air Lines, realizando o voo 605 partiu do Aeroporto Internacional de Newark às 17h04 para um voo doméstico programado com destino a Miami, levando a bordo 49 passageiros e quatro tripulantes.

Ele subiu para a altitude de cruzeiro atribuída de 4.000 pés (1.200 m). Ao voar sobre a Filadélfia, o piloto relatou que "tudo está bem". 

Às 17h41, as pessoas no solo viram o voo 605 entrar em um mergulho acentuado e cair 2 milhas (3 km) a leste de Bainbridge. Todos os quatro tripulantes e 49 passageiros morreram no acidente. 


Equipes de bombeiros de Perryville, Port Deposit (Water Witch) e Havre De Grace, juntamente com policiais e homens do Centro de Treinamento Naval de Bainbridge, correram para o local, mas nada puderam fazer. O acidente ocorreu em uma densa mata de bosques e trepadeiras perto da extremidade norte da estrada Principio, não muito longe de Bainbridge.


O chefe Walker, do Departamento de Polícia de Havre de Grace, foi o primeiro policial a chegar ao local, segundo o jornal Havre de Grace Record. Percorrendo rapidamente os poucos quilômetros da cidade até o local, ele contou ao jornal que foi guiado até a área por um avião que sobrevoava o local repetidamente. 

Mais tarde, descobriu-se que essa era a aeronave que transportava os oficiais da CAB (Canadian Air Bureau) do acidente em La Guardia, que também causou muitas mortes. “Deixei os policiais Bullock e Himes dirigindo até o local do acidente enquanto eu caminhava pela mata. Nunca me esquecerei do horror daquele primeiro vislumbre que tive ao entrar na clareira... Os destroços emaranhados do avião comercial eram um inferno em chamas, e percebi que todos os passageiros certamente deviam estar mortos.”


A investigação do Conselho de Aviação Civil sobre o acidente apurou que a causa provável do acidente foi uma perda repentina de controle, por motivos desconhecidos, resultando em um mergulho ao solo.

Em seu livro Fate Is the Hunter, Ernest K. Gann sugere que o acidente foi causado por desmontagem dos elevadores devido à falta de um parafuso da dobradiça, Gann tendo evitado por pouco um destino semelhante no mesmo dia.

Memorial às vítimas do acidente
Segundo a Aviation Week, o acidente foi considerado um mistério. Nenhuma evidência foi encontrada sobre a causa estrutural da queda e, naquela época, os equipamentos de gravação ainda não eram utilizados. Este é um dos poucos acidentes aéreos "por razões desconhecidas" na história dos acidentes aéreos dos EUA, e a investigação ainda intriga os especialistas décadas depois.

Por Jorge Tadeu da Silva (Site Desastres Aéreos) com Wikipédia, cecilcountyhistory e ASN

Chulé, pamonha, Whitney Houston: razões bizarras para um avião interromper o voo

Diversos motivos podem fazer um avião ter de voltar ao aeroporto, como mau cheiro
(Foto: Divulgação/Pixabay/Orna Wachman)
Diversos problemas podem fazer um avião pousar fora da programação normal do voo. Algumas dessas situações podem até mesmo ser engraçadas.

A lista de bizarrices é extensa: uma pamonha que dispara um alarme na cabine, mau cheiro, uma fã exagerada de Whitney Houston ou bichos estranhos a bordo. Veja a seguir algumas situações nas quais os pilotos precisaram voltar para o aeroporto devido a problemas diferentões.

Pamonha 


Em 2010, uma pamonha acionou um sensor e fez um avião voltar para o aeroporto de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Um passageiro havia despachado uma caixa com pamonhas em um voo da Webjet (incorporada à Gol, e depois extinta) com destino a Curitiba (PR). 

Como estava próxima a um dos sensores do compartimento de bagagem da aeronave, a comida, ainda quente, disparou um alerta de superaquecimento do bagageiro. O problema foi descoberto no solo e, após ser solucionado, o avião foi liberado para voar.

Chulé


Em novembro de 2021, um avião da companhia europeia Swiss precisou retornar ao aeroporto de Heathrow (Inglaterra) devido a um forte cheiro de chulé na cabine do avião. A aeronave tinha como destino a cidade de Zurique (Suíça), mas voou por apenas 50 minutos antes de pousar fora do programado. 

A medida tomada pelos pilotos visava a segurança, e não apenas o conforto. Esse cheiro fora do comum pode representar que alguma substância, inclusive tóxica, estaria evaporando, como é o caso do óleo dos sistemas hidráulicos da aeronave. 

Isso já havia acontecido antes, em um voo na Flórida (EUA) em 2018. Após o pouso, diversos passageiros daquela aeronave relataram dificuldade em respirar.

Escorpião 


Um escorpião picou uma passageira de um voo da Alaska Airlines em 2015 enquanto o avião aguardava autorização para decolar. Com a situação, os pilotos retornaram com a aeronave para a ponte de embarque. 

Funcionários da companhia inspecionaram o avião após o ocorrido e não encontraram nenhum outro escorpião a bordo.

Whitney Houston


A culpa, nesse caso, não é diretamente de Whitney Houston, que morreu em 2012, mas de uma passageira, aparentemente fã da cantora. Em 2013, durante um voo de seis horas nos Estados Unidos, uma mulher cantou diversas vezes a música "I Will Always Love You", clássico de Dolly Parton que foi regravada por Whitney. 

Como a passageira se recusou a parar de cantar, os pilotos interromperam a viagem para pousar o quanto antes. A mulher foi retirada algemada do avião e, mesmo assim, não parou de cantar a música.


Banheiro entupido


Voar em uma aeronave com o banheiro sem funcionar adequadamente também é motivo para fazer um pouso não programado. Na última década, dezenas de voos precisaram voltar para o aeroporto de origem ou desviar a rota devido a privadas entupidas. 

Embora os aviões contem, geralmente, com mais de um banheiro, caso haja o entupimento, existe o risco de que a água transborde. Junto a isso, em caso de odores fortes, a viagem se torna algo desagradável, tornando necessário pousar o avião para efetuar a manutenção ou, até mesmo, trocar de aeronave. 

Veja como funciona o banheiro de um avião:


Via Alexandre Saconi (UOL)

Aprenda oito maneiras de não ter sua mala perdida ou extraviada em viagem aérea

Malas reunidas num aeroporto: número de extravio de bagagem em viagens aéreas
aumentou após a pandemia (Foto: Pixabay/Reprodução)
Para diminuir as chances de ter uma mala perdida — e de voltar a encontra-la caso isso aconteça —, siga as dicas abaixo. Grande parte do problema está totalmente além do seu controle, por isso um tantão de paciência e um tantinho de filosofia zen também ajudam.

1) Identifique como malas


A coisa mais importante que você pode fazer para ajudar a empresa aérea a recuperar sua bagagem é etiqueta-la por fora com suas iniciais e seu número de telefone, acrescentando informações mais completas para contato, tipo um cartão de visitas, do lado de dentro. Tire fotos e anote a marca e as dimensões. Guarde o comprovante de despacho e tenha em mãos a passagem e o número do voo de cor.

Para reduzir a probabilidade de problemas, elimine ou esconda qualquer alça exterior solta que possa se enrolar no maquinário ou em outra mala e alterar seu percurso. Retire todos os adesivos com códigos de barra ou etiquetas de despacho de viagens anteriores.

— Às vezes, a mala pode parecer perdida, mas pode ter sido levada por engano por alguém, principalmente se for preta e de roda, porque é o modelo mais comum. Pode acontecer também de estar em outro carrossel. Um recurso bom é colocar um detalhe bem característico do lado de fora, tipo uma fita colorida. Uma etiqueta berrante, adesivos ou fita refletiva também ajudam a destacá-la — ensina Kevin Larson, gerente da central de serviços de bagagem da Alaska Airlines.

2) Aja imediatamente


Se sua mala não chegar ao mesmo tempo que você, notifique a companhia antes de sair do aeroporto. Entrar em contato por telefone tem sido complicado: em 30 de junho, uma gravação para quem se arriscava a ligar para a Delta Air Lines avisava que o tempo de espera era de uma hora e 20 minutos, sem oferecer a opção de deixar o número e aguarde ser chamado de volta.

3) Use a cabeça (e o bom senso) na hora de fazer as malas


O Departamento de Transportes dos EUA recomenda que os passageiros evitem colocar nas malas itens valiosos, resistentes, perecíveis ou insubstituíveis, permitindo às companhias aéreas especificar os tipos de itens que não repõem, como dinheiro vivo, joias, computadores, objetos de arte, antiguidades e itens colecionáveis. Leve-os com você ou deixe-os em casa. A medicação importante vai na mala de mão.

4) Fique de olho (virtual) nela


AirTag, dispositivo da Apple que ajuda a localizar malas extraviadas em aeroportos (Foto: Reprodução)
Colocar um pequeno rastreador como o Tile ou o AirTag da Apple dentro da bagagem permite que você acompanhe a localização por meio de um aplicativo no celular.

— Custa o mesmo que o despacho — revela Cox, da Breeze Airways.

O dispositivo é útil principalmente para saber se alguém foi pego por engano. Algumas empresas, incluindo a United, a American e a Delta Air Lines, oferecem a opção de passageiro em seu site ou aplicativo móvel.

5) Informe-se sobre as regras de indenização


O Departamento de Transportes dos EUA tem uma lista das regras que as companhias são obrigadas a cumprir caso a bagagem se perca ou atrase. O valor máximo da indenização por peça é de US$ 3.800. Os voos internacionais seguem regras diferentes, e o valor máximo que o viajante pode receber por cada uma é de US$ 1.800.

Apesar da obediência às regras oficiais, cada tem política própria, por isso a companhia é preciso dar uma sensação no site para saber os detalhes. No caso da United Airlines, por exemplo, é preciso exibir os recibos se o valor registrado dos itens for superior a US$ 1.500. Ela considera a mala "perdida" depois de cinco dias, mas outras empresas podem ter prazos mais longos.

6) Reponha o que está faltando


Quando a mala desaparece, a companhia aérea reembolsa objetos de higiene pessoal, roupas e outros itens ocasionais necessários enquanto o passageiro tenta localizá-la. O site pode ser vago em relação à cobertura, e o governo dos EUA não permite que a empresa imponha um limite diário de gastos, o que pode gerar insegurança. É preciso preencher o formulário disponível no balcão do atendimento ao cliente da empresa e discriminar ali o que foi comprado, além de justificar a compra de itens pouco comuns.

7) Proteja-se


Cartões de crédito premium às vezes oferecem proteção contra perda de bagagem, mas fazem o passageiro pular miudinho para consegui-la. Segundo Pablo Rodriguez, porta-voz do JPMorgan Chase, mais de 25 tipos de cartão da instituição oferecem até US$ 3 mil em indenização para compensar a diferença entre o reembolso da aérea e o valor da mala e de seus itens — mas preciso é exibir a cópia dos recibos de tudo que tem valor superior a US$ 25. Dependendo da idade dos objetos, o reembolso também pode ser menor. O seguro de viagem adquirido separadamente também pode incluir indenização, mas, como em relação a qualquer apólice, é preciso muita atenção com as letrinhas miúdas.

8) Não despache a mala


Pode ser a dica mais inesperadamente, mas a melhor forma de se livrar do perrengue de ver a bagagem perdida pela companhia aérea ainda é só levando mala de mão. Seja implacável: do que você realmente precisa? O que pode comprar no destino? Dá para lavar as meias na pia? Se não tiver outra opção, então tente viajar em voo direto; fazer escala é uma chance a mais de algo dar errado.

A história do protótipo 367-80 revolucionário da Boeing

O lendário jet jet 707 da Boeing é amplamente considerado como um catalisador primário para a era do jato. Esta mudança de tendências em tecnologia aproximou o mundo graças ao desempenho superior que esses motores proporcionaram. No entanto, também é importante entender as raízes do 707, que residem em um protótipo Boeing conhecido como 367-80.

O 367-80 foi uma grande aposta financeira para a Boeing, mas valeu a pena (Foto: Getty Images)

Um projeto motivado por dois eventos importantes


O Boeing 367-80, carinhosamente conhecido como 'Dash 80', voou pela primeira vez em 1954. No entanto, seu desenvolvimento foi motivado por dois eventos significativos na década de 1940. O primeiro envolveu outra aeronave Boeing, o B-47 'Stratojet'. Era um bombardeiro turbojato de longo alcance que competia com projetos de Convair, Martin e North American.

Em segundo lugar, 1949 viu o de Havilland DH.106 'Comet' fazer seu primeiro voo. Este projeto britânico foi o primeiro jato comercial do mundo. Inspirado por esta nova aeronave, o presidente da Boeing, Bill Allen, e outros funcionários visitaram o Reino Unido em 1950. Aqui, eles viram o voo do Comet (Farnborough Airshow) e a produção (fábrica de Havilland em Hatfield).

A Boeing produziu o protótipo Dash 80 para convencer as companhias aéreas dos
vários méritos dos aviões a jato (Foto: Boeing Dreamscape via Wikimedia Commons)
Acreditando que poderia recorrer a tecnologia como as asas abertas encontradas em seu B-47 para melhorar o Comet, a Boeing decidiu lançar seu próprio projeto de jato. No entanto, foi difícil persuadir as companhias aéreas, que desconfiavam da relativa inexperiência da Boeing com aeronaves a jato. Como tal, construiu um protótipo para provar o valor do design: o 367-80.

15 anos voando


O conselho da Boeing aprovou a construção do Dash 80 em abril de 1952. Depois de começar em novembro daquele ano, saiu da fábrica 18 meses depois, em maio de 1954. Fez o primeiro de 1.691 voos dois meses depois, após o qual a Boeing pôde começar usá-lo como uma aeronave de demonstração para clientes em potencial de companhias aéreas. Em uma dessas demonstrações, o piloto de testes da Boeing, Alvin Johnston, em vez disso, executou duas voltas de barril para os executivos!

O Dash 80 inspirou o 707, que definiu a era do jato (Foto: Getty Images)
A produção do Dash 80 custou à Boeing US$ 16 milhões (US$ 154 milhões hoje), o que representa uma aposta notável, considerando a anterior falta de interesse das companhias aéreas em sua proposta de jato. Apesar disso, a aposta valeu a pena. O sucesso do Dash 80 como demonstrador levou à produção do 707, que vendeu mais de 1.000 exemplares (incluindo o 720 de fuselagem curta).

O 707 entrou em serviço em 1958 e provou catalisar a era do jato . Depois disso, a Boeing adaptou o Dash 80 como uma aeronave de teste experimental. Isso ajudou a desenvolver o 727 de três motores, do qual a Boeing produziu 1.832 exemplares entre 1962 e 1984. A empresa acabou aposentando o Dash 80 em 1969, após 2.350 horas de voo.

Em preservação


O Dash 80 ficou três anos armazenado após sua aposentadoria em 1969. Após esse período, ele entrou no mundo da preservação de aeronaves em 1972, quando a Boeing o doou ao Smithsonian Air and Space Museum. Esta instituição listou o Dash 80 como uma das 12 aeronaves mais importantes da história. No entanto, não ocupou imediatamente o seu lugar no museu.

O Dash 80 em exibição no Smithsonian (Foto: Mcmartin de via Wikimedia Commons)
Na verdade, quase duas décadas de armazenamento na Base da Força Aérea Davis-Monthan (Tucson, Arizona) passaram. A Boeing começou sua restauração em 1990. Em 2003, ele estava finalmente pronto para ser exibido no museu. Em agosto daquele ano, fez seu último voo para Washington DC. Ele agora está em exibição no Steven F. Udvar-Hazy Center do Smithsonian, vestindo sua libré original.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Maldição de Antonov: A queda do voo 5915 da Sepahan Airlines e a história do An-140

Soldados iranianos respondem ao local da queda do voo 5915 da Sepahan Airlines em Teerã (AP)
No dia 10 de agosto de 2014, um avião iraniano perdeu altura e caiu logo após a decolagem de Teerã, matando 40 pessoas e colocando em questão a segurança de um tipo de aeronave. O avião envolvido era um pouco conhecido HESA IrAn-140, uma versão iraniana sob licença do turboélice regional ucraniano Antonov An-140 – um modelo que foi aparentemente amaldiçoado desde o momento em que a primeira fuselagem saiu da linha de montagem em 1997. 

Sofrendo de Após uma série de acidentes, vendas fracas e encalhes prematuros, o An-140 e seu spinoff iraniano ganharam uma reputação tão desastrosa que a maioria das companhias aéreas dispostas a voá-los eram empresas cativas de propriedade dos próprios fabricantes do tipo - incluindo a de curta duração Sepahan Airlines, que era de propriedade integral da HESA, a empresa estatal de aviação do Irã. 

Assim, quando o mundo soube que um IrAn-140 da Sepahan Airlines tinha caído em Teerã, havia poucas garantias de que a investigação seria objetiva – e de facto não foi. A causa do acidente tornou-se objeto de uma disputa tripla entre a Organização de Aviação Civil do Irã, os investigadores ucranianos de acidentes aéreos e o Comitê de Aviação Interestadual independente. 

No centro do debate estavam duas questões críticas: por que o motor direito do avião falhou quase no momento da decolagem e por que os pilotos não conseguiram manter a altitude depois? Em meio a argumentos conflitantes de atores às vezes não confiáveis, a verdade é difícil de discernir – mas há muito drama interessante a ser dissecado ao longo do caminho.

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Um An-24 abandonado, anteriormente pertencente à Aeroflot (Szabó Gábor)
Ao longo de meados do século 20, um dos projetistas de aeronaves globais mais prolíficos e renomados foi o Antonov Design Bureau da União Soviética. Com sede em Kiev, na Ucrânia, os engenheiros da Antonov produziram inúmeras aeronaves de transporte que desde então se tornaram ícones do Bloco Oriental, incluindo o onipresente biplano An-2, o avião de carga pesada An-124 e, claro, o poderoso e único An-225 Mriya, que era o maior avião do mundo até ser tragicamente destruído nas primeiras horas da invasão russa da Ucrânia.

Um dos produtos Antonov menos glamorosos foi o turboélice duplo An-24, que já foi o avião comercial regional mais comum na União Soviética. Mais de 1.000 foram construídos entre 1959 e 1979, e dezenas permanecem em serviço em todo o mundo, especialmente em África, onde as companhias aéreas apreciam a capacidade do modelo de operar em aeroportos não melhorados, com serviços terrestres mínimos ou inexistentes. Mas mesmo há 30 anos, era óbvio que o An-24, há muito fora de produção, não existiria para sempre – e por isso a Antonov Company, agora o maior fabricante de aeronaves na recém-independente Ucrânia, decidiu projetar e construir um sucessor. O resultado foi o An-140: um avião que infelizmente acabou amaldiçoado desde o início.

O primeiro An-140 é apresentado a uma multidão de curiosos (Antonov)
O An-140 foi concebido para cumprir uma função semelhante ao An-24 que substituiria e, embora os dois aviões não fossem genealogicamente relacionados, a forma geral e o layout do novo avião espelhavam o seu antecessor. Apresentava assentos dois por dois com espaço para 52 assentos de passageiros (incluindo quatro assentos voltados para trás na fila 1); um design de asa alta para minimizar o risco de danos por objetos estranhos; e dois motores turboélice Motor Sich Al-30, que eram essencialmente versões aprimoradas e licenciadas do Klimov TV3-117 soviético que alimentava quase todos os helicópteros soviéticos construídos desde 1974. 

Em muitos aspectos, o An-140 pode ser comparado a o ATR-42 de fabricação francesa, que é semelhante em aparência e função. Em relação ao ATR-42, o An-140 transporta um pouco mais passageiros a uma velocidade de cruzeiro um pouco mais alta, mas é comparativamente de baixa potência, alcançando apenas 70% da taxa de subida do ATR com 10-25% menos potência do que variantes comparáveis ​​do ATR-42. Estas estatísticas provavelmente ajudam a explicar porque é que as companhias aéreas regionais do mundo não abandonaram os seus ATRs em favor do Antonov, mas como veremos em breve, houve também muitas outras razões.

Embora o primeiro An-140 tenha saído da linha de montagem em Kharkiv, na Ucrânia, em 1997, a taxa de produção nunca excedeu 3 fuselagens por ano, e as três primeiras foram todas mantidas pela própria Antonov. Um deles foi gravemente danificado durante um voo de teste em 1999, mas foi reparado. Ao longo dos anos seguintes, uma série de fuselagens adicionais foram entregues a várias transportadoras regionais ucranianas, incluindo a Motor Sich Airlines, uma empresa de propriedade integral do fabricante de motores do An-140. Mas onde as coisas realmente começaram a piorar foi quando Antonov tentou exportar o An-140 para clientes no exterior.

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Pouco antes da viragem do milénio, Antonov negociou um acordo que permitiria à estatal Iran Aircraft Manufacturing Industrial Company, conhecida pelo seu acrónimo persa HESA, montar An-140 construídos sob licença no Irã. Sendo o principal fabricante aeroespacial na República Islâmica do Irão, a HESA é provavelmente mais conhecida hoje como a empresa por detrás do drone Shahed-131, que se tornou famoso pela sua utilização pelas forças russas contra alvos civis na Ucrânia. 

A empresa tem estado sob sanções rigorosas por parte dos EUA e da UE há muitos anos, mas no início dos anos 2000 o mundo era um lugar diferente, e não só as sanções não eram um impedimento à parceria da Ucrânia com a HESA, mas também o futuro papel que a empresa desempenharia. O papel desempenhado na destruição das cidades ucranianas não poderia ter sido previsto.

Equipes de recuperação examinam os destroços do voo 2137 da Aeromist Kharkiv
(Bureau of Aircraft Accidents Archives)
Na verdade, a parceria parecia ter começado de forma auspiciosa – pelo menos até que a primeira aeronave real saísse da linha de montagem. Em Dezembro de 2002, a HESA tinha acabado de concluir o seu primeiro An-140 sob licença (que recebeu a divertida designação oficial “IrAn-140”), e uma delegação de Antonov foi convidada a participar numa cerimónia que marcou a sua inauguração. 

Para transportar os seus engenheiros para a fábrica da HESA em Isfahan, Antonov fretou um An-140 (mas é claro!) à recém-criada companhia aérea ucraniana Aeromist-Kharkiv. Pilotado por dois pilotos de teste da Antonov e lotado de funcionários importantes da Antonov, o avião partiu da Ucrânia em 23 de dezembro de 2002 – mas, tragicamente, nunca chegou ao seu destino. Contando com um GPS não aprovado e não confiável, os pilotos saíram do curso ao se aproximar de Isfahan, e o avião caiu em uma montanha, matando todos os 44 passageiros e tripulantes.

Os restos do voo 217 da Azerbaijan Airlines foram parar nas margens do Mar Cáspio
(Bureau of Aircraft Accidents Archives)
No entanto, a produção do HESA IrAn-140 avançou. Vários foram entregues à polícia estatal iraniana – provavelmente um comprador cativo – seguidos de três para a Safiran Airlines, uma obscura transportadora de carga iraniana. Enquanto isso, Antonov entregou três An-140 de fabricação ucraniana para a Azerbaijan Airlines, a companhia aérea do Azerbaijão, com planos para mais um. Mas ambas as companhias aéreas logo tiveram um caso grave de arrependimento do comprador. 

Os aviões não se mostraram confiáveis ​​em serviço e, em agosto de 2005, um IrAn-140 da Safiran Airlines foi substancialmente danificado quando sofreu uma falha de motor seguida por uma ultrapassagem da pista durante o pouso de emergência subsequente. Os registros indicam que após o acidente, Safiran devolveu todos os seus An-140 à HESA. 

A Azerbaijan Airlines sofreu ainda pior com a sua compra: em dezembro de 2005, um de seus An-140 sofreu uma falha tripla no giroscópio logo após a decolagem de Baku, fazendo com que os pilotos ficassem desorientados e perdessem o controle; o avião caiu no Mar Cáspio, matando todos os 23 passageiros e tripulantes. As notícias indicam que a Azerbaijan Airlines aterrou os seus An-140 após o acidente, e os registos de registo mostram que a quarta fuselagem nunca foi entregue.

Um HESA IrAn-140 da polícia iraniana solta fumaça durante a partida do motor. (A. Mahgoli)
Mesmo assim, a produção continuou. Apesar dos acidentes, Antonov concluiu um acordo com a Aviakor, uma fábrica aeroespacial russa, para produzir An-140 em Samara para venda a clientes russos, e a primeira fuselagem saiu da nova linha de montagem em 2006. Vários outros se seguiram em 2009, 2011. e 2012, que foram vendidos à Marinha Russa, à Força Aérea Russa e à transportadora regional russa Yakutia Airlines. 

Simultaneamente, a HESA continuou a produzir IrAn-140 adicionais em Isfahan, mas aparentemente encontrou poucos compradores. Certamente não ajudou o fato de, em 2009, uma das fuselagens da HESA ter caído durante um voo de treinamento, com a perda de todos os 5 tripulantes. Depois disso, possivelmente por nenhuma outra razão a não ser para recuperar algum dinheiro com as fuselagens que já havia construído, em 2010 a empresa fundou a “HESA Airlines”, uma subsidiária integral que transportaria passageiros em voos curtos em todo o Irã, utilizando uma frota de 6 Irã-140. O nome da empresa foi alterado para Sepahan Airlines no final de 2013. (Talvez o nome tenha sido alterado para parecer mais uma companhia aérea normal. Você teria voado na McDonnell Douglas Air?)

Pouco depois disso, o remorso do comprador transformou-se no remorso do vendedor por Antonov. Na primavera de 2014, a revolução ucraniana levou a uma ruptura nos laços com a Rússia que acabou por evoluir para um conflito interestatal, e os dois países têm estado em estado de guerra desde então. O último Aviakor An-140 foi concluído em 2013, e os registros sugerem que nenhum outro An-140 ucraniano ou iraniano foi construído após essa data. Além disso, dado que a Antonov construiu os seus An-140 em Kharkiv, uma cidade no leste da Ucrânia que foi devastada pela invasão russa em 2022, qualquer tentativa a curto prazo de reiniciar a produção parece improvável.

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EP-GPA, a aeronave envolvida no acidente da Sepahan Airlines (Mohammadreza Farhadi Aref)
Foi depois que esta fuselagem final saiu da fábrica que continuamos a história de mais um desastre envolvendo o An-140. A história começa na manhã de 10 de agosto de 2014, no Aeroporto Internacional de Mehrabad, o principal hub doméstico de Teerã, onde um HESA IrAn-140 da Sepahan Airlines se preparava para partir num voo regular de rotina para Tabas, no nordeste do Irã.

No comando do voo, designado voo 5915, estavam dois pilotos cujas identidades não foram reveladas, sendo um Capitão de 63 anos e um Primeiro Oficial de 32 anos. O capitão tinha cerca de 9.500 horas de voo, incluindo respeitáveis ​​2.000 no An-140, mas o primeiro oficial era relativamente verde, com apenas 572 horas totais. O An-140 parece ter sido a primeira aeronave para a qual ele foi designado após terminar a escola de voo.

As condições naquele dia causaram mau tempo para voar – não porque estivesse úmido ou nublado, mas pelo contrário. Às 9h daquela manhã, a temperatura em Mehrabad já havia atingido escaldantes 36˚C (97˚F) e continuava a subir rapidamente, um fato que os pilotos sabiam que prejudicaria seu desempenho na decolagem, porque o ar mais quente é menos denso e reduz assim a sustentação. A elevação do aeroporto, a 3.962 pés (1.208 m) acima do nível do mar, apenas agravou este efeito. E com 42 passageiros e seis tripulantes a bordo, além de bagagem e combustível, os cálculos de peso e balanceamento prometiam ser apertados — tão apertados, na verdade, que com 19.866 quilogramas, o total final a que a tripulação chegou ficou claramente acima do peso máximo de decolagem. , embora o quanto dependa de para quem você pergunta (mais sobre isso mais à frente).

Rota do voo 5919 (Trabalho próprio, mapa de Pars Times)
Mesmo assim, os pilotos prosseguiram com o voo, selecionando uma configuração de flap de decolagem de 10 graus, e provavelmente determinaram que a VR – a velocidade na qual eles girariam para a decolagem – seria de 224 km/h, ou 121 nós. (O An-140 usa instrumentação totalmente métrica, então km/h será usado daqui em diante). Ou pelo menos é isso que VR deveria ter sido – nenhuma discussão real sobre a velocidade de rotação foi registrada.

Às 9h12, eles estavam prontos para taxiar até a pista de decolagem 29L. A pista paralela 29R não estava em uso naquele dia, então as aeronaves estavam taxiando na 29R antes de virar para decolar na 29L, e o voo 5915 faria o mesmo.

“SPN 5915, pegue E6, A3”, disse o controlador.

“E6, retrocesso 29L, SPN 5915”, respondeu o primeiro oficial.

Mas o primeiro oficial, não sendo falante nativo de inglês, cometeu um pequeno erro. “Não, vice-versa, retroceda 29R, mantenha curto 29L”, explicou o controlador.

“Você disse todas as frases erradas”, advertiu o capitão.

“Recuar 29R, segurar 29L, SPN 5915”, leu o primeiro oficial, desta vez corretamente.

“Você disse todas as frases erradas, tudo!!” o capitão exclamou novamente. A transcrição oficial do gravador de voz da cabine acrescenta vários pontos de exclamação a esta linha, sugerindo que o capitão estava bastante agitado, embora seja difícil entender o porquê.

Menos de dois minutos depois, a pedido do Primeiro Oficial, o Capitão conduziu o briefing de decolagem, explicando que se ocorresse uma falha no motor, eles colocariam o avião no ar, virariam à esquerda para o ponto de referência KAZ e voltariam ao padrão de tráfego para pousar. Não houve discussão sobre as especificidades da falha do motor nos procedimentos de decolagem.

Agora, perto de um cruzamento ao lado da pista 29L, o Primeiro Oficial comentou: “Se a aeronave estivesse leve e vazia, poderíamos organizar a partida daqui”. Às vezes, as decolagens em interseções são permitidas quando a distância de decolagem disponível é muito maior do que o necessário, mas hoje elas precisariam de toda a pista.

“Sim, uma vez fizemos isso no Aeroporto de Dubai, mas naquela época não tínhamos tanta carga útil”, disse o Comandante.

Às 9h18, o voo 5915 foi liberado para a pista atrás de um MD-88 que partia. “MD-88 apenas funcionando. É tão pesado, assim como nós. Corra, corra até amanhã”, disse o capitão, referindo-se à duração da corrida de decolagem do jato fortemente carregado.

“Agora mesmo o trem de pouso do nariz está decolando”, disse o Primeiro Oficial.

Finalmente, às 9h20, foi a vez do Antonov. “SPN 5915, liberado para decolagem”, disse a torre.

Os pilotos ligaram os motores e observaram que todas as indicações estavam normais. Com seus dois motores Al-30 zumbindo na potência máxima, o avião acelerou na pista, atingindo sua velocidade de decisão às 9h21 e 2 segundos. “Velocidade de decisão, continue”, gritou o primeiro oficial. Agora era tarde demais para abortar a decolagem – se um motor falhasse naquele momento, eles teriam que levar o avião ao ar.

Uma linha do tempo anotada do voo
Pouco depois da chamada de decisão de velocidade, o capitão começou a girar o nariz para a decolagem, mas isso foi prematuro: a velocidade deles era na verdade de apenas 219 km/h, e não de 224 km/h, como exigido. Consequentemente, ele teve que puxar o nariz alguns graus acima do normal para decolar, o que não teria sido um grande problema se não fosse pelo fato de que o motor direito falhou inesperadamente às 9h21 e 6 segundos, momentos após o capitão ter começado. girando e apenas dois segundos antes da decolagem.

Por que exatamente o motor certo falhou está sujeito a controvérsia e será discutido mais tarde. Mas o que se sabe é que em vez de um aviso de falha adequado, que deveria vir com um sinal sonoro repetitivo e contínuo, houve apenas um único sinal sonoro, seguido por um breve toque de uma buzina de alerta, depois mais dois sinais sonoros. O motor direito imediatamente começou a recuar, seu impulso caindo vertiginosamente. Apesar da ausência dos avisos esperados, porém, o Comandante identificou a falha imediatamente e, em cinco segundos, disse ao Primeiro Oficial: “É o motor, por favor, observe o motor”. Cinco segundos depois, ele repetiu seu comando novamente: “Cuidado com o motor!”

“A taxa de combustível do motor falhou”, disse o primeiro oficial, provavelmente lendo uma mensagem de alerta no visor do motor. “Chips de combustível do motor.” Ele então se virou para o capitão e perguntou: “Posso solicitar retorno?”

“Sim”, respondeu o capitão. “Declarar emergência”. Naquele momento, o sinal sonoro repetitivo finalmente soou, 17 segundos depois que o motor realmente falhou.

O que os pilotos não pareceram perceber foi que durante esses 17 segundos a sua situação se deteriorou substancialmente. Considerando o excesso de peso, a alta temperatura e a altitude, o desempenho de subida do avião com um motor inoperante já era marginal - mas vários fatores adicionais estavam mudando a situação de grave para crítica. Uma delas foi que, em meio à surpresa da falha, os pilotos não se lembraram de levantar o trem de pouso, o que aumentava muito o arrasto do avião (erro que não foram os primeiros nem os últimos a cometer).

Para piorar ainda mais a situação, porém, o sistema eletrônico de controle do motor, ou EEC, que deveria ter embandeirado automaticamente a hélice assim que detectasse a falha do motor, não o fez. Em aeronaves a hélice, tanto o empuxo quanto o arrasto dependem fortemente do passo das pás - o ângulo das pás da hélice em relação ao plano de rotação. Quando as pás estão alinhadas com o plano de rotação, o passo das pás é de 0 graus, e quando as pás estão posicionadas perpendicularmente ao plano de rotação, o seu passo é de 90 graus, ou totalmente “embandeirado”. 

Durante a operação normal do motor, um passo da pá em algum lugar entre esses dois extremos permite que a hélice dê uma “mordida” no ar, acelerando o ar para trás para gerar impulso. Mas quando um motor falha, esta relação será invertida, à medida que o fluxo de ar que se aproxima empurra a hélice em círculos, criando arrasto em vez de impulso. Por esta razão, quando um motor falha em um avião movido a hélice, é fundamental que o passo das pás seja rapidamente aumentado para 90 graus, de modo que o fluxo de ar atinja as pás primeiro e passe suavemente ao redor delas, em vez de atingir as faces das pás. as pás e acionando a hélice em marcha à ré.

A diferença entre as posições das hélices
Esta explicação, embora simplificada, deveria ser suficiente para entender por que o fracasso da CEE em embandeirar a hélice era um problema sério. Na verdade, a possibilidade de tal falha era tão séria que os procedimentos padrão exigiam que os pilotos pressionassem imediatamente o botão de “embandeiramento da hélice” assim que identificassem uma falha no motor, a fim de terem certeza extra de que a hélice realmente embandeirava – mas no voo 5915, os pilotos nunca o fizeram. 

Em vez disso, o passo da pá permaneceu em 46 graus, onde foi mantido pelo regulador de excesso de velocidade da hélice, causando um arrasto substancial. Somente 17 segundos após a falha, quando o EEC finalmente pareceu acordar, é que o aviso de falha do motor foi gerado e o comando automático de embandeiramento foi emitido. O passo das pás da hélice aumentou imediatamente em direção à posição embandeirada de 90 graus, mas já era tarde demais.

Este gráfico que mostra dados do voo acidental ilustra claramente a relação entre o aumento do AOA e a diminuição da velocidade no ar, bem como as várias fontes de arrasto na aeronave e como elas se uniram para derrubar o avião (Irã AAIB)
O problema era que o voo 5915 vinha perdendo velocidade desde que decolou, devido a diversos fatores. Com um motor inoperante, os pilotos precisavam manter uma velocidade no ar não inferior à velocidade de segurança de decolagem, ou V2, que com peso de aeronave de 19.866 kg, temperatura de 36˚C e altitude de 1.208 m, deveria ser 234 km/h. Deixar de manter esta velocidade após uma falha do motor na decolagem pode resultar na incapacidade de ganhar altitude suficiente. Mas o voo 5915 nunca atingiu a velocidade de 234 km/h em nenhum momento e, de facto, a sua velocidade atingiu o pico na descolagem e depois diminuiu continuamente. O capitão criou esta crise de bola de neve quando girou para a decolagem 5 km/h muito cedo, resultando em um ângulo de ataque maior do que em uma decolagem normal. 

Em qualquer altitude e configuração da aeronave, a sustentação é principalmente uma função da velocidade no ar e do ângulo de ataque, ou do ângulo das superfícies de sustentação na corrente de ar, portanto, para decolar em uma velocidade no ar mais baixa, é necessário um ângulo de ataque mais alto. Mas um ângulo de ataque mais alto apresenta mais espaço do avião para o fluxo de ar que se aproxima, causando maior arrasto. Se o arrasto total do avião for maior que o empuxo disponível, a velocidade no ar diminuirá e, como manter a sustentação em uma velocidade no ar mais baixa requer um ângulo de ataque mais alto, o ângulo de ataque aumentará ainda mais, criando arrasto adicional, e assim por diante, até que o avião pare e caia.

E como se isso não bastasse, o arrasto também estava sendo criado pelo ângulo de derrapagem do avião – o ângulo entre a direção para a qual o nariz apontava e a direção real da viagem. Quando um motor falha, o empuxo assimétrico fará com que o avião deslize lateralmente, o que deve ser combatido pelo piloto usando o leme para manter o avião voando em linha reta. Mas o capitão estava aplicando consistentemente menos força no leme do que o necessário para neutralizar a derrapagem, então o avião começou a desviar o nariz para a direita, apresentando mais do lado esquerdo da fuselagem para a corrente de ar que se aproximava, o que, claro, criou ainda mais arrasto.

Agora considere todos os fatores acima juntos. Novamente, devido ao peso do avião e à alta temperatura e altitude, era necessária uma velocidade no ar não inferior a 234 km/h para subir com segurança com o impulso de apenas um motor. Mas o trem de pouso estava estendido, a hélice direita não estava embandeirada, o avião derrapou e a rotação inicial do capitão fez com que o ângulo de ataque subisse mais de 10 graus, bem acima do valor normal. 

Com todas essas fontes de arrasto, a aeronave não conseguiu atingir a velocidade de segurança de decolagem de 234 km/h, e sua velocidade no ar caiu lentamente à medida que subia em direção a uma altura máxima de apenas 40 metros acima do solo. A sobrevivência exigiu ação corretiva imediata, retraindo o trem de pouso, embandeirando a hélice direita, zerando a derrapagem e inclinando-se para reduzir o ângulo de ataque. Mas os pilotos não fizeram nada disso e, embora o sistema eletrônico de controle do motor eventualmente tenha embandeirado a hélice automaticamente, isso por si só foi insuficiente para evitar a desaceleração do avião. Em segundos, um acidente tornou-se inevitável.

E, no entanto, enquanto o avião se aproximava de um estol, o primeiro oficial estava ocupado fazendo uma chamada pelo rádio: “Radar Mehrabad, SPN 5915”, disse ele.

O capitão soltou um palavrão persa, provavelmente devido às suas crescentes dificuldades de controle.

“Radar Mehrabad, vire à esquerda imediatamente”, disse o controlador da torre, observando que o voo 5915 estava desviando para a direita, é claro.

“Vire à esquerda imediatamente”, leu o primeiro oficial. Na verdade, o capitão já estava tentando virar para a esquerda usando a coluna de controle, mas isso não ajudou em nada a situação. A única maneira de voltar ao curso era contrariar a derrapagem, enquanto virar à esquerda com os ailerons na verdade acelerou o início do estol.

“O motor número dois falhou”, repetiu o primeiro oficial.

"Vire à esquerda!", disse o capitão.

A trajetória de impacto da aeronave (Irã AAIB)
Naquele momento, com um ângulo de ataque e uma derrapagem superior a 15 graus, e a uma velocidade inferior a 180 km/h, a asa direita deixou de gerar sustentação e a aeronave entrou em estol de uma altura de apenas 40 metros. A asa direita mergulhou e o avião caiu no chão em segundos, cortando as copas de várias árvores perto do estacionamento de um complexo industrial antes de cair no chão em uma atitude de direita para baixo. 

O avião sofreu um forte impacto, rompendo os tanques de combustível, e uma enorme bola de fogo irrompeu quando a fuselagem deslizou pelo solo e atingiu a parede perimetral do complexo industrial. A parede desabou, a fuselagem se quebrou e a cauda continuou passando pelos destroços em desintegração, antes de parar no meio das oito pistas do Azadi Stadium Boulevard.

Os soldados mantêm os espectadores longe da cauda cortada do An-140 (AP)
Para a maioria dos ocupantes, o acidente foi quase instantaneamente fatal. O fogo consumiu a maior parte da fuselagem antes que qualquer sobrevivente pudesse sonhar em escapar, mas alguns que estavam sentados perto dos intervalos da cabine ou que foram jogados para fora do avião durante o acidente conseguiram escapar, embora não sem sofrer queimaduras graves. Relatos não confirmados também sugerem que alguns motoristas na avenida também podem ter sofrido ferimentos.

Quando o controlador da torre viu o avião cair, ativou o alarme de colisão, enviando bombeiros do aeroporto para o local, mas nenhuma notificação aos serviços de emergência externos foi emitida. Os bombeiros da cidade de Teerã souberam do desastre separadamente, ao receberem ligações de testemunhas, e chegaram ao local antes dos bombeiros do aeroporto, descobrindo vários sobreviventes gravemente feridos perto da aeronave em chamas. No total, 11 pessoas foram levadas às pressas para o hospital, mas uma morreu no caminho e outras duas morreram durante o tratamento, reduzindo o número de sobreviventes para apenas oito. Outras quarenta morreram no acidente, incluindo todos os seis tripulantes.

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Os bombeiros examinam os restos carbonizados da fuselagem (AFP)
Como o acidente ocorreu a uma curta distância da sede do Conselho de Investigação de Acidentes de Aeronaves da Organização de Aviação Civil Iraniana, os investigadores chegaram ao local apenas 30 minutos após o acidente, onde imediatamente começaram a reunir provas. Um convite para se juntar à investigação também foi enviado ao Comité de Aviação Interestadual, ou MAK, um organismo internacional que certifica equipamentos e investiga acidentes em grande parte da antiga União Soviética, e que originalmente certificou o An-140 no final da década de 1990. 

A Ucrânia retirou-se do MAK em 2012 e criou o seu próprio Gabinete Nacional de Investigações de Acidentes de Aeronaves, ou NBAAI, pelo que também lhes foi enviado um convite, a fim de representarem o país de fabrico. No entanto, pouco mais de três semanas antes, o voo 17 da Malaysia Airlines foi abatido perto de Donetsk, no pior desastre aéreo alguma vez ocorrido em solo ucraniano, e todos os investigadores da NBAAI estavam ocupados, pelo que a agência não enviou quaisquer representantes ao Irã. No entanto, participaram em testes realizados nas instalações da Antonov na Ucrânia e tiveram a oportunidade de comentar o projeto de relatório final, conforme exigido pelo direito internacional.

A primeira questão enfrentada pelos investigadores foi por que o motor direito falhou pouco antes da decolagem. Os dados de voo mostraram claramente uma queda em todos os parâmetros relevantes às 9h21min06s, 2 segundos antes da decolagem, incluindo uma queda repentina na pressão da câmara de combustão. Em busca de uma falha, os destroços do motor direito foram levados ao laboratório de motores Klimov, na Rússia, onde foi encontrado um possível problema: uma solda de má qualidade no flange de montagem do duto de sangria do ar condicionado. 

O ar sangrado é usado para pressurizar a cabine através do sistema de ar condicionado, entre outras finalidades, e esse ar é desviado dos motores através do duto de ar sangrado, que é montado na seção do compressor logo à frente da câmara de combustão. Se o duto se separasse no ponto de montagem, o ar pressurizado poderia ter escapado do motor em vez de passar para a câmara de combustão, causando a combustão do motor. Mas foi isso que realmente aconteceu? Ou a solda ruim falhou como resultado do acidente? Estranhamente, isso depende de para quem você pergunta.

Os destroços do An-140 foram empilhados atrás do muro e escondidos com
uma lona por dias após o acidente (Irã AAIB)
No seu relatório final, a AAIB iraniana escreveu que a causa mais provável da falha da soldadura foi, na sua opinião, o próprio impacto, apesar das suas deficiências pré-existentes. Nenhuma evidência específica para esta conclusão foi fornecida. A NBAAI ucraniana não comentou o assunto, mas o MAK nos seus comentários foi bastante inequívoco na sua rejeição deste raciocínio. Na opinião do MAK, a solda fraturada mostrou evidências claras de fadiga do metal levando à sua falha, e que a separação poderia ter causado, e muito provavelmente causou, a perda de pressão da câmara de combustão e a subsequente extinção do motor que foram capturadas pelo gravador de dados de voo.

A AAIB iraniana propôs uma teoria completamente diferente: que a falha do motor foi causada por uma falha no sistema de controle eletrônico do motor RED-2000, que eles acreditavam ter enviado um comando errôneo de corte de combustível para a unidade de controle de combustível. O fato de o EEC não estar a funcionar corretamente ficou evidente a partir dos dados de voo, que mostraram que uma série de parâmetros provenientes do EEC tornaram-se não fiáveis ​​no momento da falha, registando valores que a AAIB descreveu como “inconsistentes com os princípios da física.” (Por exemplo, a pressão do ar de admissão registada alterou-se rapidamente entre 0,93 e 1,734 kg/cm2 por segundo, o que é fisicamente impossível). Além disso, o facto de nem o aviso de falha do motor nem o comando automático de embandeiramento terem ocorrido antes dos 17 segundos após a falha também foi citado como prova de que o CEE não estava funcionando corretamente até aquele momento.

Outra vista da cauda no meio da avenida (AFP)
Por outro lado, o MAK acreditava que o funcionamento anormal do EEC ocorreu em decorrência de falha do motor. Os comentários da agência não detalham por que acham que esse foi o caso, afirmando apenas que as “condições externas” criadas pela liberação repentina de ar quente e pressurizado na área de acessórios do motor poderiam explicar o comportamento do sistema. 

Em vez disso, concentrando-se no cenário de falha no duto de ar de sangria, o MAK observou que o avião acidentado já havia recebido avisos sobre vibrações anormais no motor certo devido a causas desconhecidas, que não foram adequadamente exploradas - em vez disso, os mecânicos da HESA simplesmente substituíram a vibração sensor, que então registrou dados não confiáveis ​​​​por algum tempo antes de parar de funcionar completamente. A implicação parece ser que, como os avisos vibratórios pararam, o problema foi considerado resolvido, independentemente de ter sido realmente esse o caso. Na opinião do MAK, contudo, o problema claramente não foi resolvido e as vibrações contínuas poderiam ter contribuído para a falha prematura da junta mal soldada.

Ao mesmo tempo, a AAIB do Irão observou que havia um histórico de problemas com o RED-2000 EEC - uma alegação que o MAK considerou infundada - e que os An-140 em geral sofreram falhas de motor a uma taxa inaceitável, ao que o MAK pediu qual era uma taxa aceitável e quem a definiu. A AAIB iraniana não respondeu a estas perguntas. No entanto, dado que o An-140 estava (anedoticamente) crivado de falhas técnicas de todos os tipos, não ficaria particularmente surpreendido se as afirmações dos iranianos fossem precisas. Por outro lado, quando se trata da análise técnica da falha do motor, tenho tendência a depositar mais confiança no MAK, que tem um historial de investigação muito melhor do que o do Irão.

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Jornalistas fazem fila para fotografar a cauda (AFP)
É claro que a falha do motor em si era apenas parte da história. O An-140 foi certificado para subir com segurança com um motor, por isso a investigação também se concentrou no peso da aeronave e nas ações da tripulação durante os segundos críticos em que o voo 5915 esteve no ar.

O fato de a aeronave estar acima do peso e que isso provavelmente contribuiu para a falha do avião em manter a altitude foi acordado por todas as partes. Os registros de peso e balanceamento mostraram que a aeronave pesava 19.866 kg, o que era um excesso de peso, não importa como fosse cortado, e os comentários dos pilotos sobre seu peso durante o táxi sugeriram que eles poderiam estar cientes disso. Mas qual foi o peso máximo de decolagem (MTOW) real naquele dia, após contabilizar a temperatura e a altitude? 

Usando a tabela de peso do Aircraft Flight Manual (ou AFM), os iranianos chegaram a um peso máximo de decolagem de 19.650 kg (tornando a aeronave 216 kg acima do peso, embora o relatório iraniano use o valor de 190 kg o tempo todo, desafiando a matemática básica ), enquanto os ucranianos calcularam um peso máximo de decolagem de 19.500 kg (366 kg de excesso de peso). 

A diferença provavelmente advém da interpretação dos Ucranianos de que o MTOW deve ser arredondado para o 500 mais próximo, embora isto não seja explicitamente declarado. Ambos os lados também observaram que teria sido possível reduzir o avião ao máximo descarregando combustível, já que o avião transportava 500 kg a mais de combustível do que realmente precisava para a viagem.

O MAK, no entanto, chegou a um valor de MTOW completamente diferente, observando que embora o gráfico de temperatura e altitude produzisse um MTOW acima de 19.000 kg, o fator limitante era na verdade a velocidade da roda durante a corrida de decolagem. Os pneus e rodas do An-140 foram avaliados apenas para uma velocidade de 250 km/h, e se uma velocidade de solo superior a essa fosse necessária para colocar o avião no ar, o peso precisaria ser reduzido. Com o peso real do avião de 19.866 kg, e assumindo a rotação correta, a decolagem deveria ocorrer a uma velocidade de 231 km/h. 

No entanto, devido à reduzida densidade do ar em Mehrabad naquele dia em relação às condições padrão para as quais os seus sensores foram calibrados, o avião teria necessidade de viajar consideravelmente mais rápido através do solo para atingir esta velocidade no ar. Combinado com um componente de vento favorável que estava presente durante a decolagem do acidente, a velocidade real das rodas na decolagem teria sido de 270 km/h, o que era muito rápido. 

De fato, utilizando a tabela de limitação de velocidade no solo do AFM, o MAK calculou que o peso do avião teria de ter sido reduzido para 17.200 kg, com uma velocidade de descolagem resultante de 216 km/h, para satisfazer os 250 km /h limite de velocidade da roda. Isso significava que o avião estava com mais de 2.600 kg de excesso de peso. Reconhecendo que a observação do MAK estava correta, a AAIB do Irão reviu o seu relatório para refletir esta descoberta.

Uma das únicas partes reconhecíveis da cabine do voo 5915 era o para-brisa carbonizado e danificado (Irã AAIB)
Se os pilotos também tivessem percebido isso, e tivessem mantido seu peso de decolagem abaixo de 17.200 kg, a melhoria de desempenho resultante poderia ter permitido que eles acelerassem durante a falha do motor, evitando o acidente. No entanto, os investigadores iranianos e MAK concordaram que as cartas AFM eram confusas, na medida em que implicavam que 19.500 kg era um MTOW aceitável até que se tentou calcular a velocidade de decolagem, que raramente é um fator limitante e pode ser negligenciada. Por sua vez, os ucranianos contestaram a alegação de que havia algo confuso nas cartas e que, se houvesse, a Organização da Aviação Civil do Irão teve a oportunidade de levantar a questão quando certificou o An-140 para produção no Irão, mas eles não.

No entanto, embora decolar com 2.600 quilos a menos de carga, combustível e passageiros pudesse tê-los salvado, o peso não foi o fator decisivo. A velocidade das rodas não teve nada a ver com o desempenho na decolagem e, se a ignorássemos, o avião teria apenas 366 kg de excesso de peso, o que não foi suficiente para explicar por que não conseguiu subir após a falha do motor. A NBAAI da Ucrânia afirmou que os testes de simulador conduzidos por Antonov na presença de investigadores mostraram que mesmo com esse peso, o desempenho de subida do monomotor do avião atendeu aos requisitos de certificação internacional, na medida em que a velocidade de segurança de decolagem V2 era alcançável pela altura exigida de 35 pés (10,7 m) com um gradiente de subida resultante superior a 2,4%. 

No entanto, a AAIB iraniana observou que este desempenho só poderia ser alcançado se o piloto girasse na velocidade correta e retraísse o trem de pouso após a decolagem. Na verdade, escreveram eles, mesmo que a rotação fosse realizada corretamente, o V2 ​​ainda não seria alcançado em 35 pés – mas não mencionaram claramente que os procedimentos AFM também exigem que a tripulação retraia o trem de pouso antes de atingir esta altura. Com a técnica de rotação correta e o trem de pouso retraído em 35 pés, foi possível atender aos requisitos de desempenho acima mencionados; e, além disso, se o trem de pouso não fosse retraído em 35 pés, as regras de certificação exigiriam apenas que o avião atingisse um gradiente de subida positivo, o que aconteceria. 

Nos seus comentários, os investigadores ucranianos advertiram os seus homólogos iranianos por insinuarem que a aeronave não cumpria os padrões de desempenho do monomotor, quando na verdade cumpria, conforme explicado acima.

Os bombeiros se reúnem em torno dos restos carbonizados da asa do An-140 (Irã AAIB)
Ao final, os testes de desempenho mostraram que quatro fatores principais causaram o arrasto que impediu o avião de ganhar altitude: o trem de pouso estendido; o elevado ângulo de ataque causado pela rotação inicial; a falha em embandeirar a hélice por 17 segundos; e o grande ângulo de derrapagem do avião. Todos estes fatores em conjunto contribuíram para a queda, mas a rotação inicial foi de longe a mais significativa, de acordo com um gráfico de arrasto anexado ao relatório iraniano. O gráfico sugere que manter um ângulo de ataque mais baixo pode ter sido suficiente por si só para evitar a perda de velocidade no ar e o subsequente estol, mesmo com todos os outros fatores presentes. 

Por outro lado, o gráfico sugere que após cerca de 9:21 e 16 segundos (ou 10 segundos após a falha do motor), retrair o trem de pouso, neutralizar o ângulo de derrapagem e embandeirar imediatamente a hélice pode não ter sido suficiente para alcançar uma tendência positiva de velocidade no ar. mesmo quando realizados em conjunto, se o ângulo de ataque também não fosse reduzido. No entanto, essas ações poderiam ter sido suficientes se realizadas imediatamente, porque alcançar uma tendência de velocidade positiva no início teria interrompido a tendência de aumento do ângulo de ataque, evitando arrasto adicional mais tarde no voo.

O fato de nenhuma destas ações ter sido efetivamente executada em qualquer momento atestou o mau desempenho da tripulação de voo durante a emergência. Os pilotos negligenciaram quase todos os princípios do procedimento de “falha do motor na decolagem”, conforme estabelecido no manual, que exigia que eles retraíssem o trem de pouso, pressionassem o botão da pena da hélice e usassem o leme para manter o mínimo de derrapagem possível. , e reduza o ângulo de inclinação conforme necessário para manter uma velocidade não inferior a V2. 

No caso, ninguém jamais apertou o botão de pena; ninguém nunca chamou “trem para cima” e o trem de pouso não foi retraído; os comandos do leme do capitão foram insuficientes para neutralizar a derrapagem; e o capitão nunca fez qualquer tentativa de atingir uma velocidade acima de V2. O Primeiro Oficial, carente de assertividade e possivelmente preocupado com os comentários pouco lisonjeiros do Capitão sobre suas habilidades, também nunca interveio. Em vez disso, durante o voo de aproximadamente 45 segundos, a única tarefa notável realizada por qualquer um dos pilotos foi uma chamada para o controle de tráfego aéreo, o que representou uma falha abjeta do princípio de “aviar, navegar, comunicar”. A comunicação com o ATC só deveria acontecer depois que a aeronave estivesse sob controle, o que neste caso nunca aconteceu.

Um dos motores do voo 5915 (Irã AAIB)
Apesar do acima exposto, em seu relatório final a AAIB do Irã citou apenas a falha do motor e o alto peso de decolagem como causa do acidente, sendo a rotação antecipada, a falha no embandeiramento da hélice e o excesso de combustível como fatores contribuintes. Tanto o MAK como a NBAAI da Ucrânia comentaram que a rotação antecipada e outros erros da tripulação de voo deveriam ter sido elevados à causa provável juntamente com a falha do motor, mas esta sugestão foi rejeitada, juntamente com a grande maioria dos pontos levantados pelas duas agências. 

A leitura de seus comentários dá a impressão de que os iranianos não tiveram a melhor relação de trabalho com seus homólogos MAK e ucranianos, o que desde então foi reafirmado pelos comentários contundentes da NBAAI sobre a investigação iraniana sobre o abate do voo 752 da Ukraine International Airlines em 2020 sobre Teerã . Quanto a quem parecia ter a visão mais clara do que aconteceu e porquê, tenho de optar pelo MAK, como sempre.

No entanto, muitas questões permanecem. Os pilotos foram adequadamente treinados para lidar com uma falha no motor do An-140? (As suas acções sugerem que não.) O CAO do Irão monitorizou adequadamente as operações da estatal Sepahan Airlines? (O sistema político iraniano contém poucas salvaguardas contra conflitos de interesses). 

E, em primeiro lugar, porque é que o Capitão rodou cedo? (Ele estava tentando evitar excesso de velocidade dos pneus? Um limite de velocidade de 250 km/h nos pneus é excepcionalmente baixo e pode ter sido um problema conhecido entre os pilotos do An-140. Vou deixar isso para meus leitores pilotos refletirem sobre ; eles saberiam melhor do que eu.) Com estas questões pendentes, a história completa do voo 5915 provavelmente nunca será contada, mesmo no caso improvável de as divergências sobre as causas diretas do desastre serem resolvidas.

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Um An-140 da Força Aérea Russa, retratado em 2014 (Alexander Usanov)
Além da perda imediata de vidas e propriedades, a queda do voo 5915 também desferiu mais um golpe devastador na já pobre reputação do An-140. Quer a causa da falha do motor tenha sido o EEC ou um duto de ar de sangria mal soldado, os baixos padrões de fabricação foram os responsáveis ​​de qualquer maneira, e o acidente apenas reforçou o histórico do modelo de falhas mecânicas perigosas e prematuras. 

Consequentemente, o primeiro-ministro iraniano, Hassan Rouhani, ordenou o aterramento de todos os HESA IrAn-140 imediatamente após a queda, onde permaneceram durante quase duas semanas até que o CAO lhes permitiu voar novamente em 23 de agosto. Mas o estrago estava feito: com a sua frota composta exclusivamente por IrAn-140, a Sepahan Airlines nunca mais voou e os registos sugerem que as restantes aeronaves foram desativadas.

Desde então, o mesmo destino se abateu sobre a maioria dos outros An-140. O site do AeroTransport Data Bank indica que apenas 6 An-140 ainda voavam em julho de 2023, incluindo dois da Força Aérea Russa, dois da Marinha Russa e dois da Yakutia Airlines. Uma fuselagem adicional pertencente à Motor Sich Airlines ficou parada desde a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 e poderia, teoricamente, voar novamente se a guerra terminasse, mas no momento em que este livro foi escrito, isso parecia improvável. Considerando tudo isso, não é o fim que Antonov esperava quando decidiu construir um sucessor do An-24 da década de 1950. Na verdade, neste momento ainda há mais An-24 voando ao redor do mundo do que o número total de An-140 já construídos.

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O UR-14005, o último An-140 na Ucrânia, decola de Lviv em 2018. Mesmo que a guerra
termine em breve, não está claro se algum dia ele voará novamente (Yura Tanchin)
A queda do voo 5915 da Sepahan Airlines também deveria servir como um alerta sobre a importância de estar pronto para tomar medidas rápidas e decisivas no caso de uma falha de motor na descolagem. Não deve ser esquecido simplesmente por causa de onde aconteceu ou do tipo de avião envolvido. 

Acidentes semelhantes envolvendo turboélices bimotores aconteceram e continuam acontecendo em todo o mundo, muitos dos quais poderiam ter sido evitados se o instinto do piloto fosse manter o V2 ​​a todo custo. Se os pilotos do voo 5915 tivessem se preparado para o pior, se tivessem feito o que fosse necessário para atingir essa velocidade, então eles e outros 38 ainda estariam vivos. 

A próxima tripulação a enfrentar tal situação provavelmente não estará pilotando um An-140, e todos contamos com eles para reconhecer que tal evento poderia acontecer com eles, independentemente do que estejam voando - antes que eles, também, ficam olhando para o chão com um avião cheio de pessoas atrás deles.

Quanto ao aparentemente amaldiçoado An-140, o seu destino é infelizmente semelhante ao de praticamente todos os novos aviões comerciais produzidos na ex-URSS desde o seu colapso, sejam russos ou ucranianos. Nenhuma dessas aeronaves conseguiu competir com os modelos ocidentais, às vezes porque não têm desempenho comparável, ou porque é difícil encontrar peças de reposição, ou - como parece ter sido o caso do An-140 - porque simplesmente não estão muito bem feito. 

E com seu carro-chefe An-225 em ruínas, sua linha de montagem fora de serviço e seu país lutando pela sobrevivência, é difícil encontrar uma luz no fim do túnel para o sitiado fabricante do An-140. No entanto, podemos esperar que um dia, nos céus de uma Europa mais pacífica, um Antonov renovado possa ainda replicar a glória do seu passado.

Edição de texto e imagens por Jorge Tadeu da Silva (Site Desastres Aéreos) com Admiral Cloudberg