sexta-feira, 22 de maio de 2026

Como John Travolta transformou sua paixão por aviões em filme exibido em Cannes

O ator, que também é piloto e tem uma coleção de aeronaves, faz sua estreia como diretor com um filme autobiográfico sobre o começo dessa paixão.

(Imagem: Apple TV/Gettimagens: Stephane Cardinale - Corbis/Montagem sobre reprodução)
Na sexta-feira passada (15), John Travolta aterrissou em Cannes pilotando o seu próprio avião.

Um vídeo postado no Instagram pessoal do ator mostra alguns instantes dessa viagem. Do cockpit da aeronave, o capitão Travolta anuncia aos passageiros a decolagem com destino à cidade francesa. Olhando pela janela, a câmera flagra os prediozinhos da costa passando por debaixo da asa. Do chão, adequadamente trajado com uma boina azul-marinho, o ator (e agora também diretor) diz aos espectadores.

“Hoje pilotei meu avião no Festival de Cannes!”, diz, em alto e bom francês, de braços dados com sua filha Ella Bleu.


Que John Travolta é perdidamente apaixonado pela aviação, isso ele nunca escondeu. Conhecido por estrelar sucessos como Grease e Pulp Fiction, o astro de Hollywood também é, há quase cinco décadas, um piloto de avião credenciado, e já afirmou que ama voar tanto quanto atuar no cinema.

Não surpreende, portanto, que sua estreia como diretor no cinema seja uma grande carta de amor às aeronaves. Aventuras nas alturas (Propeller One-Way Night Coach) estreou naquela mesma sexta-feira no Festival de Cannes – um dos eventos mais prestigiosos do cinema mundial, sediado na França. Pouco antes da exibição, para sua surpresa, o diretor também ganhou uma Palma de Ouro honorária, troféu que homenageia a trajetória completa de grandes nomes do cinema.

O filme, que tem lançamento marcado para o dia 29 deste mês na plataforma Apple TV+, é um projeto íntimo de Travolta. A narrativa segue uma versão ficcionalizada da infância do próprio ator, e retrata a história do amor à primeira vista entre uma criança e o deslumbrante mundo das aeronaves, durante a era de ouro da aviação comercial.

O filme também é uma adaptação direta do livro infantil de mesmo nome escrito pelo próprio ator, lançado em 1997. Não à toa, é ele quem dá voz ao narrador do filme.

A premissa é a mesma: em 1962, Jeff (Clark Shotwell), um menino de 8 anos, faz sua primeira viagem de avião junto de sua mãe, Helen (Kelly Eviston-Quinnett), uma aspirante a atriz de Nova York que espera encontrar, em Hollywood, o estopim para uma carreira vibrante. Ao longo do trajeto, os dois fazem várias paradas, trocam de aviões, conhecem novas pessoas, e por aí vai.

(Imagem: Apple TV/Divulgação)
Como descreve a crítica Leslie Felperin para o The Hollywood Reporter, “os clímax emocionais são os momentos em que [Jeff] percebe que eles serão transferidos para a primeira classe e que vão voar em um verdadeiro Boeing 707 durante o último trecho da viagem”. Algo perfeitamente esperado em um filme feito por um completo nerd de aviação.

Na vida real, John Travolta teve suas primeiras aulas de piloto já aos 15 anos. Em 1978, aos 24 anos, garantiu sua credencial completa. Desde então, o ator já conseguiu pelo menos 12 licenças para comandar modelos que vão desde jatinhos de luxo até o Boeing 737.

Com o sucesso nas telonas, veio a grana, e, com a grana, Travolta acumulou uma coleção extensa e luxuosa de aeronaves. Já passaram pelas mãos do ator pelo menos 17 modelos diferentes, incluindo jatinhos, aeronaves a pistão e um Boeing 707 de 1964 que teve entre seus antigos donos Frank Sinatra.

Para comportar suas necessidades aviatórias, em 2001, o ator se mudou para uma mansão na cidade de Ocala, na Flórida, numa propriedade aeroportuária especialmente equipada para aviões, com pistas para manobra e decolagem.

“A aviação sempre me libertou de qualquer coisa triste que estivesse na minha cabeça”, disse Travolta durante uma convenção de aviação em 2008. “Eu consigo olhar uma tabela de voos e um folheto de companhia aérea e me animar”.

Vale dizer: talvez essa não seja a forma mais ecofriendly de se livrar do baixo astral. Jatinhos particulares são a forma de viajar mais nociva ao meio ambiente. Por pessoa, um voo particular produz uma pegada de carbono 14 vezes maior que um passageiro de voo regular.

Entre os críticos de cinema que estiveram na exibição em Cannes, Aventuras nas alturas não parece ter feito uma aterrissagem perfeita. Uma resenha especialmente ácida no The Wrap fez questão de descrever o filme como uma “uma experiência rígida e agoniantemente sem vida”, mas outros artigos têm encontrado um grande charme na nostalgia inocente que Travolta tentou retratar.

Muitos elogios foram direcionados não exatamente à obra, mas à paixão do autor, que guiou todo um projeto que é perceptivelmente bem pessoal. Sobre isso, Brian Tallerico, do site RogerEbert.com, comenta: “Uma leitura metalinguística de Aventuras nas Alturas é mais interessante do que o próprio filme, que é tragicamente prejudicado por uma clara falta de ambição e por atuações que nunca encontram exatamente o tom certo. É um presente que Travolta fez para si mesmo e para sua família, algo que ele provavelmente quis deixar como parte de seu legado. Isso não faz dele um bom filme.”

Confira o trailer:


Por Diego Facundini (Superinteressante)

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